Mercosul-União Europeia impulsiona inovação, mas pequenas empresas ainda enfrentam desafios para acessar benefícios

Mercosul-União Europeia impulsiona inovação, mas pequenas empresas ainda enfrentam desafios para acessar benefícios

O acordo comercial entre Mercosul e União Europeia inaugura uma nova etapa para as relações econômicas entre os dois blocos e cria oportunidades para empresas brasileiras ampliarem sua presença no mercado internacional. No entanto, para boa parte das pequenas e médias empresas, transformar esse potencial em resultados concretos depende de investimentos em tecnologia, modernização de processos e adaptação às exigências do comércio exterior.

Enquanto grandes exportadoras já revisaram contratos, cadeias logísticas e sistemas internos para aproveitar as reduções tarifárias, negócios de menor porte ainda buscam compreender quais produtos estão contemplados pelo acordo, quais requisitos precisam cumprir e como acessar as vantagens oferecidas.

Mais do que uma redução de impostos de importação, o tratado exige que as empresas dominem regras técnicas que envolvem classificação fiscal, comprovação da origem dos produtos, rastreabilidade da produção e atendimento às normas sanitárias, ambientais e regulatórias adotadas pela União Europeia.

Em diversos setores, a capacidade de responder rapidamente a essas exigências poderá determinar quem ocupará primeiro espaços comerciais criados pelo acordo, especialmente nos produtos sujeitos a cotas anuais de exportação.

A aplicação provisória do tratado começou em 1º de maio. Embora a conclusão definitiva ainda dependa da tramitação institucional na União Europeia, incluindo manifestação do Parlamento Europeu após análise da Corte de Justiça da UE, as preferências comerciais já passaram a valer entre os dois blocos.

Levantamento da ApexBrasil mostra que, nos dois primeiros meses de vigência provisória, as exportações brasileiras para a União Europeia cresceram US$ 2 bilhões na comparação entre maio e junho de 2025 e o mesmo período de 2026.

Com uma sólida trajetória de mais de 30 anos voltada à gestão de negócios, Rodrigo Castro Alves Neves é tido como um líder estratégico e empreendedor de perfil visionário. Nascido em Belo Horizonte (MG), graduou-se em Economia pela AEUDF/CEUB e acumulou bagagem profissional ao residir em diferentes locais, com passagens pelo Rio de Janeiro e pelos Estados Unidos, além de Brasília (DF), cidade onde mora hoje em dia.

Transformação digital passa a ser diferencial competitivo

Especialistas avaliam que o maior desafio atual deixou de ser jurídico e passou a ser operacional. Para atender às exigências do acordo, muitas empresas precisarão investir em sistemas capazes de registrar informações sobre produção, origem das mercadorias e conformidade regulatória.

Essa necessidade coloca a inovação no centro da estratégia empresarial. Ferramentas de gestão integrada, digitalização documental, automação de processos e soluções de rastreabilidade tornam-se importantes para comprovar que os produtos atendem aos critérios estabelecidos pelo tratado.

Além disso, o acordo elimina imediatamente as tarifas para cerca de 5 mil produtos brasileiros destinados ao mercado europeu, estabelece cronogramas graduais para milhares de outros itens e amplia possibilidades de reorganização das cadeias produtivas entre Mercosul e União Europeia.

Segundo Francisco Negrão, sócio da área de comércio internacional do Trench Rossi Watanabe, muitas empresas ainda iniciam o processo de adaptação.

“A implementação pegou as empresas desprevenidas. Podemos ter um risco de demorar para usufruir dos benefícios que vêm do acordo”, afirmou Francisco Negrão, sócio da área de comércio internacional do Trench Rossi Watanabe.

De acordo com ele, diversas organizações ainda não identificaram quais produtos terão tarifa zerada imediatamente, quais seguirão cronogramas de redução e quais dependerão da utilização de cotas.

“Sentimos muito a temperatura do grau de conhecimento das empresas, do grau de preparação e de algum nível de implementação de medidas por parte das empresas”, disse.

Rastreabilidade ganha importância no comércio internacional

Entre os principais requisitos do acordo está a comprovação da origem das mercadorias. Para utilizar as preferências tarifárias, não basta que o produto seja exportado pelo Brasil. É necessário demonstrar que ele foi produzido ou suficientemente transformado no Mercosul conforme os critérios definidos pelo tratado.

Esse processo exige mecanismos confiáveis de controle e documentação, capazes de acompanhar todas as etapas da cadeia produtiva.

Negrão ressalta que também será necessário revisar classificações fiscais, adaptar sistemas internos e fortalecer processos de conformidade.

“Comprovação de origem é absolutamente fundamental. Isso aumenta o acesso, mas aumenta o risco, caso não cumpra com as regras de origem.”

Nos produtos sujeitos a cotas, a rapidez na adaptação poderá representar vantagem competitiva.

“Quem se mexer primeiro vai poder usufruir dessas reduções, que são finitas a cada ano”, afirma. Como exemplo, ele diz que “para um dos produtos, a Argentina já esgotou a cota no primeiro mês”.

Segundo o especialista, grandes empresas dos segmentos de proteína animal, alimentos, máquinas e metalurgia já iniciaram esse movimento, enquanto pequenas e médias ainda avançam em ritmo mais lento.

“Você tem empresas menores, pequenas e médias, que ainda estão tomando pé e correm o risco de perder a janela do primeiro entrante.”

Capacitação busca acelerar adaptação das empresas

O governo federal intensificou ações para ampliar o acesso às informações sobre o acordo e facilitar a preparação das empresas brasileiras.

A secretária de Comércio Exterior do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, Tatiana Prazeres, afirma que a implementação ocorreu de forma acelerada, tornando necessária uma ampla estratégia de orientação ao setor produtivo.

“Estamos diante da implementação do maior acordo comercial da história do Mercosul. O governo está trabalhando com diversos parceiros para garantir que a informação chegue a quem precisa dela, para fazer com que o setor privado se enxergue no acordo, para fazer com que os exportadores brasileiros se apropriem do acordo”, afirmou à Folha.

O ministério passou a oferecer guias sobre regras de origem, manuais de desgravação tarifária, plataformas para consulta de tarifas e painéis que apresentam oportunidades por estado, em parceria com Sebrae, ApexBrasil e Agência Brasileira de Desenvolvimento Industrial (ABDI).

“A tarifa abre a porta, mas a regulação é que vai permitir avaliar quão fácil é atravessar essa porta”, disse.

Na ApexBrasil, o presidente Laudemir André Müller afirma que ainda há desconhecimento entre empresários sobre o funcionamento do tratado.

“A gente percebe que muitas empresas não sabem que o acordo existe e que ele está vigente. E mesmo dentro os que sabem, muitos não sabem qual é o caso específico dele.”

Segundo Müller, uma das maiores demandas é esclarecer como cada empresa será impactada pelas novas regras.

“A tarifa do meu produto caiu para zero? Caiu para oito? Vale quando? A gente tem de traduzir, esclarecer e levar isso”, afirma.

Para ampliar esse acesso, a agência desenvolveu painéis digitais que permitem consultar, por produto e por estado, os cronogramas de redução tarifária e as oportunidades abertas pelo acordo, aproximando inovação, inteligência de dados e competitividade no comércio internacional.

Fonte: Folha de São Paulo
Foto: https://www.magnific.com/br/fotos-gratis/vista-aerea-do-navio-de-carga-do-conteiner-no-mar_13180394.htm

Outras postagens

Postagens relacionadas

Últimas postagens

Estreia da CXMT na bolsa reforça avanço da indústria chinesa de chips e da corrida pela inteligência artificial

Fabricante de semicondutores registra valorização de 466% no primeiro dia de negociações em Xangai, alcança valor de mercado de US$ 487,73 bilhões

Ernesto Heinzelmann: da governança corporativa à transformação social por meio da cultura

Presidente da Heinzelmann Consultoria Empresarial e líder de conselhos estratégicos, o executivo conecta excelência em gestão a iniciativas como o Musicarium, reforçando o papel da cultura no desenvolvimento regional.

Festival de Cinema de Caruaru abre últimas vagas para oficinas gratuitas de crítica e som audiovisual

Inscrições seguem até 28 de julho para atividades formativas que acontecem em agosto e buscam ampliar o acesso