No primeiro semestre de 2026, as empresas brasileiras captaram R$169,8 bilhões em debêntures, 12,1% menos que um ano antes, segundo a Anbima. No mesmo período, as emissões de FIDCs cresceram 29,4%, para R$53,1 bilhões, em 559 operações. Parte do financiamento corporativo mudou de canal em um semestre em que eventos de crédito pressionaram os spreads e levaram companhias a adiar emissões.
Para quem dependia de uma única porta, o período teve custo. Empresas com a dívida concentrada em bancos, ou em emissões pontuais, ficaram expostas à mesma revisão de apetite ao risco, ao mesmo tempo. Com a Selic em 13,75% ao ano desde setembro e o crédito ainda seletivo, a composição das fontes de financiamento passou a ser uma decisão de gestão de risco, e não apenas de custo.
Para Valdir Piran Jr., CEO do Grupo Intra, gestora de crédito estruturado voltada a empresas do middle market e corporate, muitas empresas ainda confundem diversificação com quantidade de credores. “Ter mais credores não basta. A empresa precisa de credores que não reajam ao mesmo problema do mesmo jeito. Se todos olham apenas o balanço, ela continua dependente de uma única leitura sobre o próprio negócio”, afirma.
O risco que não aparece na taxa
Avaliar o financiamento apenas pelo custo médio esconde uma variável: quantas fontes respondem ao mesmo gatilho. Linhas de três bancos diferentes parecem diversificadas, mas tendem a ser revistas juntas quando o ciclo de crédito vira, porque seguem critérios parecidos de rating, setor e alavancagem. A diversificação que protege combina canais com lógicas de decisão distintas: o banco avalia principalmente a capacidade de pagamento da empresa; o FIDC considera a qualidade da carteira de recebíveis, os devedores e a estrutura de garantias; o crédito estruturado pode considerar fluxos financeiros ou ativos específicos.
O primeiro semestre mostrou essa diferença. Segundo o presidente do Fórum de Estruturação de Mercado de Capitais da Anbima, companhias com acesso a debêntures preferiram esperar spreads menores, enquanto empresas menores seguiram emitindo em operações de porte reduzido. O avanço dos FIDCs no mesmo período é coerente com essa lógica: neles, o risco é lido a partir da carteira, e não só do balanço de quem cede os recebíveis.
“Quem concentra todo o financiamento em dois ou três bancos costuma descobrir esse risco no pior momento, quando o limite é revisto junto com o ciclo de crédito. Ter os recebíveis estruturados antes disso muda a posição da empresa na mesa”, destaca Piran Jr.
A mesma lógica vale para prazos. Uma empresa que concentra vencimentos em um único ano depende de que a janela de mercado esteja aberta naquele ano. Ao combinar uma linha bancária de giro, um FIDC revolvente e uma operação estruturada de prazo mais longo, ela distribui os vencimentos e passa a contar com fontes que se renovam em ritmos diferentes.
O que a empresa precisa ter antes de diversificar
Para Valdir Piran Jr., o gargalo está menos na oferta de capital e mais na capacidade das empresas de usar os próprios dados para planejar a captação. Os investidores passaram a atribuir maior importância à qualidade da informação que cada companhia entrega, e a diferença de condições entre duas empresas com faturamento parecido pode estar também na forma como elas documentam a própria operação.Isso se traduz em requisitos concretos como sistemas que rastreiam cada venda até o recebimento, uma política definida de quais recebíveis podem ser cedidos e a quem, revisão dos contratos bancários em vigor para identificar restrições à cessão e uma comparação do custo total de cada fonte, incluindo estruturação, administração, custódia e rating, e não só a taxa. Sem essa base, a empresa troca a dependência do banco pela dependência de uma única estrutura, o que não reduz o risco, apenas o desloca.
O Grupo Intra, que tem cerca de R$5 bilhões sob gestão , origina operações diretamente com as empresas, e é dessa experiência que Piran Jr. tira uma constatação sobre o momento em que as empresas procuram o mercado. “Muitas companhias chegam ao mercado de capitais quando já precisam do dinheiro. As que conseguem as melhores condições se prepararam antes, com dados organizados, contratos padronizados e um histórico que o investidor consegue auditar”, afirma.
O avanço dos FIDCs e do crédito estruturado em 2026 ampliou as alternativas, mas não tornou a diversificação automática. Com a Selic em queda lenta e investidores mais seletivos depois dos eventos de crédito do semestre, a próxima revisão de limites tende a encontrar as empresas em posições muito diferentes. As companhias que organizarem carteira, garantias e vencimentos com antecedência terão fontes que respondem a gatilhos diferentes. As demais continuarão negociando, com o banco ou com o mercado, no momento em que têm menos margem para escolher.
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