A tecnologia está deixando de ocupar apenas uma função operacional na saúde para assumir um papel estratégico na ampliação do acesso e na continuidade do cuidado. Teleconsultas, telemonitoramento, prontuários eletrônicos e ferramentas de inteligência artificial já fazem parte da transformação do setor, mas seu potencial depende de uma questão mais estrutural: a capacidade de integrar informações e serviços em torno do paciente.
A digitalização já alcança grande parte dos estabelecimentos de saúde brasileiros. Segundo a pesquisa TIC Saúde 2024, 92% das instituições utilizavam sistemas eletrônicos para registro de informações dos pacientes. Ao mesmo tempo, apenas 26% declararam possuir sistemas eletrônicos com interoperabilidade, ou seja, capazes de trocar informações entre diferentes sistemas. O contraste evidencia que o desafio da transformação digital não está mais apenas em informatizar os serviços, mas em fazer com que a tecnologia efetivamente conecte as diferentes etapas do cuidado.
Para Gustavo de Carvalho Meres, executivo com experiência em gestão, saúde e transformação organizacional, essa mudança exige que a tecnologia seja avaliada pelo resultado que produz na jornada do paciente.
“A tecnologia tem pouco valor quando funciona de maneira isolada. O verdadeiro ganho acontece quando dados, profissionais e serviços conseguem se conectar para que o paciente não precise reiniciar sua jornada a cada novo atendimento. Ampliar o acesso significa também reduzir a fragmentação do cuidado e utilizar a informação para tomar decisões mais rápidas, precisas e coordenadas”, avalia o especialista.
Telemedicina amplia alcance, mas integração define o resultado
A expansão dos serviços remotos mostra como a tecnologia pode reduzir barreiras geográficas e ampliar as possibilidades de acompanhamento. Dados apontam que 23% dos estabelecimentos ofereciam teleconsulta e o mesmo percentual disponibilizava telediagnóstico. O telemonitoramento estava presente em 16% das instituições, enquanto a teleconsultoria, voltada à interação entre profissionais, alcançava 30%.
Essas ferramentas podem aproximar pacientes de especialistas, apoiar o acompanhamento de condições crônicas e reduzir deslocamentos desnecessários. O impacto, entretanto, não depende apenas da existência do atendimento remoto. Para que a jornada seja contínua, informações produzidas em uma consulta, exame ou monitoramento precisam acompanhar o paciente e estar disponíveis para os profissionais envolvidos no cuidado.
Essa é uma das razões pelas quais a interoperabilidade se tornou uma questão estratégica para o setor. A Rede Nacional de Dados em Saúde (RNDS), do Ministério da Saúde, foi estruturada justamente como a plataforma oficial de interoperabilidade do país, com a função de conectar sistemas e permitir o compartilhamento padronizado de informações de saúde.
Na avaliação de Meres, a integração permite deslocar o foco da tecnologia como ferramenta para a tecnologia como infraestrutura de cuidado.
“O próximo estágio da transformação digital não será determinado pela quantidade de ferramentas disponíveis, mas pela capacidade de integrá-las. Quando uma informação clínica acompanha o paciente e chega ao profissional no momento adequado, a tecnologia deixa de ser apenas conveniência e passa a produzir eficiência, continuidade e segurança na assistência”, afirma.
Dados passam a apoiar decisões e gestão
A integração também modifica a forma como as organizações administram seus recursos. Informações clínicas e operacionais, quando estruturadas e analisadas conjuntamente, podem apoiar a identificação de gargalos, o acompanhamento de indicadores e a definição de prioridades de investimento.
Sistemas digitais já incorporam funcionalidades voltadas ao suporte à decisão. Entre os estabelecimentos pesquisados, 38% dispunham de sistemas com diretrizes clínicas, práticas recomendadas ou protocolos, enquanto 31% contavam com alertas relacionados a alergias a medicamentos.
Nesse cenário, a inteligência artificial amplia as possibilidades de análise ao permitir que grandes volumes de informações sejam processados com maior velocidade. Seu potencial, porém, está menos na substituição do profissional do que na capacidade de fornecer informações qualificadas para apoiar decisões clínicas e administrativas.
“A inteligência artificial pode ampliar enormemente a capacidade de análise das organizações, mas precisa estar inserida em processos bem estruturados. Sem dados confiáveis, integração entre sistemas e governança, uma ferramenta sofisticada não necessariamente produz uma decisão melhor. O valor está na combinação entre tecnologia, informação e capacidade humana de interpretar os resultados”, destaca Meres.
Tecnologia precisa chegar à jornada do paciente
A transformação digital da saúde também passa pela relação direta entre instituições e usuários. A TIC Saúde 2024 ainda mostra que 31% dos estabelecimentos ofereciam agendamento de consultas pela internet, 29% permitiam o agendamento de exames e 34% disponibilizavam resultados de exames online. Apenas 16% ofereciam acesso ao prontuário eletrônico pela internet.
Os números indicam que a digitalização já alcançou diferentes pontos da relação com o paciente, mas ainda existe espaço para integrar esses serviços em uma experiência única. Em vez de plataformas isoladas para agendamento, exames, consultas e acompanhamento, a tendência é que essas funcionalidades sejam cada vez mais conectadas à jornada assistencial.
Para Meres, esse processo pode representar uma mudança importante na maneira como o acesso à saúde é organizado.
“Ampliar o acesso não significa apenas colocar uma consulta à disposição por meio de uma tela. Significa reduzir barreiras, encurtar caminhos e fazer com que o paciente tenha continuidade no cuidado. A tecnologia pode ajudar a construir essa experiência, desde que seja desenhada a partir das necessidades reais das pessoas e integrada aos processos das organizações”, afirma.
A transformação digital não deve ser medida apenas pelo número de ferramentas adotadas. Seu impacto estará na capacidade de conectar serviços, reduzir fragmentações e transformar informação em decisões mais eficientes. Em um sistema de saúde que reúne diferentes níveis de atendimento, profissionais, instituições e modelos de operação, essa integração pode ser determinante para ampliar o acesso sem perder qualidade e humanização.
Para Gustavo de Carvalho Meres, esse é o principal desafio da próxima etapa da transformação do setor: “A tecnologia já demonstrou que pode ampliar o alcance da saúde. Agora precisamos garantir que ela também seja capaz de conectar a jornada, integrar informações e melhorar a experiência de quem está no centro de todo esse sistema: o paciente.”
Imagem: https://www.magnific.com/br/fotos-gratis/banner-medico-com-medico-segurando-o-tablet_30555917.htm#fromView=search&page=1&position=2&uuid=3af164fa-cacc-4a31-aa0a-216a6d8a0d32&track=ais_hybrid&query=integra%C3%A7%C3%A3o+tecnologica++saude