Durante muito tempo, a área tributária foi tratada pelas empresas principalmente como uma estrutura de apoio à contabilidade e ao cumprimento de obrigações fiscais. Esse cenário vem mudando. Em um ambiente marcado pela transformação do sistema tributário brasileiro, pelo avanço da fiscalização digital e pela necessidade de maior previsibilidade financeira, decisões relacionadas a impostos passaram a ocupar espaço cada vez mais próximo da estratégia corporativa.
Estudo divulgado pela PwC Brasil em julho de 2026 mostra essa mudança de perspectiva: 83% dos executivos brasileiros consultados consideram a área tributária relevante para a tomada de decisões de negócio. A pesquisa aponta que a tributação deixou de ser percebida apenas como uma obrigação regulatória e passou a influenciar a forma como empresas estruturam operações, cadeias de valor e estratégias de crescimento.
Para o jurista, advogado, contador, auditor e autor especializado Myke Oliveira Gomes, essa transformação exige que as organizações aproximem o conhecimento tributário das áreas responsáveis pela gestão e pela tomada de decisões:
“A governança tributária, nesse contexto, passa a funcionar como uma estrutura permanente de avaliação de riscos, planejamento e conformidade. O objetivo não é apenas reduzir a carga tributária dentro dos limites legais, mas compreender como as escolhas fiscais interferem no fluxo de caixa, na rentabilidade, nos investimentos, na estrutura societária e na própria capacidade de crescimento da empresa”, destaca o especialista.
Governança tributária aproxima planejamento fiscal da estratégia empresarial
A maturidade da gestão tributária começa pela integração entre diferentes áreas da organização. Jurídico, contabilidade, auditoria, financeiro e administração precisam compartilhar informações para que os impactos fiscais sejam considerados antes da tomada de decisões relevantes.
Essa integração ganha ainda mais importância diante da Reforma Tributária. A implementação do novo modelo altera processos, sistemas, formação de preços, aproveitamento de créditos e organização das cadeias produtivas, tornando necessário avaliar os efeitos tributários de decisões que anteriormente poderiam ser tomadas sem participação direta da área fiscal.
A Receita Federal vem reforçando uma visão de conformidade baseada em dados. O Painel Receita, por exemplo, disponibiliza às empresas indicadores de receita, lucratividade, participação de mercado e endividamento, utilizando informações declaradas pelos próprios contribuintes. A iniciativa estabelece uma relação cada vez mais direta entre qualidade das informações fiscais e capacidade de análise empresarial.
Para Myke Oliveira Gomes, essa realidade modifica o papel do planejamento tributário. Mais do que buscar oportunidades pontuais, as empresas precisam desenvolver mecanismos capazes de antecipar riscos, acompanhar mudanças regulatórias e avaliar continuamente os efeitos das decisões fiscais sobre o negócio.
Compliance tributário passa a fazer parte da gestão de riscos
O fortalecimento da governança também está relacionado à evolução dos mecanismos de fiscalização. A digitalização ampliou a quantidade de informações disponíveis ao poder público e aumentou a capacidade de cruzamento de dados, tornando inconsistências fiscais potencialmente mais identificáveis.
Nesse cenário, compliance tributário deixa de representar apenas o cumprimento de obrigações acessórias e passa a envolver processos de controle, revisão, documentação, rastreabilidade e prevenção de contingências.
Pesquisa da KPMG sobre governança tributária, realizada com 41 grandes grupos empresariais, mostra que 57% das organizações participantes ainda não possuíam uma estrutura formal de governança tributária. O levantamento também identificou que 66% utilizavam dados e tecnologia para otimizar práticas fiscais, enquanto 70% dessas empresas já haviam automatizado suas atividades fiscais ou estavam em processo de automação.
Os dados revelam uma diferença importante entre reconhecer a relevância estratégica da tributação e estruturar mecanismos efetivos para administrá-la.
“Na prática, uma política consistente de governança tributária permite identificar riscos antes que se transformem em autuações ou passivos relevantes, além de fornecer informações para decisões relacionadas a investimentos, expansão, reorganizações societárias, precificação e operações de fusões e aquisições”, discorre o jurista.
Gestão tributária influencia competitividade e geração de valor
A relação entre tributação e competitividade também passa pela capacidade de a empresa conhecer o custo real de suas operações. Uma decisão aparentemente vantajosa pode produzir efeitos diferentes quando considerados impostos incidentes, créditos tributários, obrigações acessórias, riscos de contingência e custos de conformidade.
Por isso, o planejamento tributário tende a assumir uma função cada vez mais integrada ao planejamento empresarial. A análise fiscal precisa acompanhar decisões sobre localização de operações, modelos societários, cadeias de fornecimento, contratação de serviços, investimentos e expansão para novos mercados.
A PwC observa essa mudança ao apontar que a nova ordem tributária brasileira está levando empresas a repensarem suas operações e cadeias de valor. A Reforma Tributária também reforça esse movimento. Segundo a Receita Federal, o novo modelo busca ampliar a transparência, reduzir a litigiosidade e aproximar o sistema brasileiro de práticas internacionais de tributação sobre o consumo. A transição, porém, exige adaptação dos processos empresariais e dos sistemas utilizados para apuração e gestão dos tributos.
Para Myke Oliveira Gomes, esse ambiente torna a governança tributária parte da própria arquitetura estratégica das organizações. Empresas capazes de integrar planejamento, compliance, auditoria e gestão de riscos tendem a obter maior previsibilidade para tomar decisões e identificar oportunidades dentro dos limites estabelecidos pela legislação.
“Mais do que acompanhar a legislação, a governança tributária passa, assim, a antecipar seus impactos. A capacidade de transformar informações fiscais em inteligência para o negócio pode contribuir para proteger margens, reduzir contingências e melhorar a qualidade das decisões de longo prazo”, finaliza ele.
Nesse cenário, o diferencial competitivo não está apenas em pagar corretamente os tributos, mas em compreender a tributação como uma variável estratégica do negócio. Para empresas brasileiras que enfrentam um ambiente regulatório cada vez mais complexo, integrar conhecimento jurídico, contábil, financeiro e tributário tende a ser fundamental para transformar a conformidade em segurança, previsibilidade e geração sustentável de valor.
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