O avanço da cultura de wellness vem mudando a relação dos consumidores com a alimentação. Mais do que buscar produtos associados à saúde, parte do mercado passou a valorizar ingredientes naturais, conveniência, origem e atributos nutricionais. Nesse movimento, frutas amazônicas como o açaí e o camu-camu começam a ocupar um espaço que vai além do consumo regional e alcança uma indústria global de alimentos, bebidas e produtos funcionais.
O movimento ocorre em um mercado de dimensões crescentes. Segundo o Global Wellness Institute (GWI), a economia global do wellness movimentou US$6,8 trilhões em 2024, enquanto o Brasil respondeu por US$125 bilhões e aparece entre os maiores mercados nacionais do setor.
Para Rodrigo Godoi Rincon, diretor da Tropicool e especialista em superfoods e investimentos, o açaí representa um dos exemplos mais claros dessa transformação. O fruto amazônico passou de alimento de forte identidade regional a ingrediente reconhecido internacionalmente por sua associação com saúde, praticidade e estilo de vida.
“O açaí mostra como um ingrediente de origem amazônica pode ganhar relevância global quando reúne atributos nutricionais, praticidade e capacidade de adaptação aos novos hábitos de consumo. A oportunidade está em transformar essa demanda em produtos e negócios capazes de gerar valor em toda a cadeia”, avalia Rincon.
Do alimento regional à economia global do wellness
A internacionalização do açaí acompanha uma mudança no comportamento de consumo. O fruto já aparece em diferentes formatos e mercados, enquanto a indústria amplia as possibilidades de processamento e comercialização. Para Rincon, essa transformação ajuda a explicar por que o açaí passou a ser associado a uma categoria muito mais ampla do que a de uma fruta amazônica.
“O consumidor de hoje não olha apenas para o ingrediente isoladamente. Ele quer entender o que está consumindo, como aquele produto se encaixa na rotina e quais atributos justificam sua escolha. É essa mudança de comportamento que abre espaço para ingredientes amazônicos dentro do mercado de wellness”, afirma o executivo.
Em análise publicada no início de 2026, o executivo destacou que o açaí evoluiu de alimento regional para protagonista do segmento global de health & wellness. Entre os atributos que ajudaram a impulsionar essa expansão estão a combinação de sabor, características nutricionais e praticidade.
A própria composição do fruto ajuda a explicar seu apelo. Segundo a Embrapa, o açaí apresenta proteínas, fibras, lipídios, minerais e vitamina E, além de elevada concentração de antocianinas, compostos fenólicos associados à capacidade antioxidante. A instituição também registra o crescimento da demanda pelo produto no mercado nacional e o interesse em investimentos e pesquisas relacionados à cadeia.
A mudança de escala, entretanto, não significa apenas ampliar o consumo da polpa. O mercado passou a explorar diferentes formas de apresentação e aplicações, criando espaço para bebidas, ingredientes, alimentos processados e produtos com maior valor agregado.
“O próximo movimento não está apenas em vender mais açaí, mas em desenvolver melhor o que pode ser feito a partir dele. Quanto maior a capacidade de transformar a matéria-prima em ingredientes, produtos e experiências de consumo, maior também será o valor econômico capturado pela cadeia”, destaca Rodrigo Godoi Rincon.
O desafio é transformar biodiversidade em valor
A expansão do wellness cria uma oportunidade que ultrapassa o campo nutricional. Para o Brasil, o desafio passa a ser transformar a riqueza de sua biodiversidade em negócios capazes de gerar mais valor ao longo da cadeia.
Isso envolve processamento, tecnologia, conservação, logística, rastreabilidade, desenvolvimento de ingredientes e construção de marcas. Quanto maior a capacidade de transformar uma fruta em diferentes soluções de consumo, maior também a possibilidade de acessar mercados que valorizam diferenciação e não apenas volume.
“Existe uma diferença importante entre ter uma biodiversidade extraordinária e conseguir transformá-la em vantagem econômica. Isso exige pesquisa, tecnologia, escala, rastreabilidade e capacidade de construir produtos competitivos. É aí que está uma das grandes oportunidades para o Brasil”, ressalta Rincon.
Nesse cenário, o açaí representa mais do que uma história de sucesso de uma fruta amazônica. Ele demonstra como uma matéria-prima regional pode ganhar escala quando encontra mudanças de comportamento, inovação e novos modelos de consumo.
A próxima etapa pode estar justamente em ampliar esse movimento para outras espécies. Rodrigo Godoi Rincon destaca que ao aproximar biodiversidade, ciência, indústria e mercado, o Brasil tem a possibilidade de transformar o interesse global pelas superfrutas em uma cadeia mais diversificada e fazer da origem amazônica não apenas um atributo de produto, mas um ativo de inovação e valor.
Imagem: https://www.magnific.com/br/imagem-ia-premium/maos-lavando-uma-cesta-de-frutas-escuras-em-agua-destacando-praticas-agricolas_389252515.htm#fromView=search&page=2&position=34&uuid=fe45ab04-e116-4c11-8464-47e6542d56c0&track=ais_hybrid&query=coleta+a%C3%A7ai