A internet via satélite vive uma fase de expansão acelerada no Brasil e começa a atrair novos protagonistas dispostos a disputar espaço com a Starlink, que hoje lidera o segmento. O interesse cresce impulsionado pela capacidade de atender áreas remotas, onde a infraestrutura terrestre é limitada, e pela promessa de menor latência em comparação com sistemas tradicionais. Para os próximos anos, especialmente a partir de 2026, o setor observa com atenção o avanço da tecnologia direct-to-device, que permite a conexão do celular diretamente ao satélite, sem o uso de antenas dedicadas.
Esse movimento ocorre em um ambiente regulatório que busca incentivar a concorrência. Segundo a Agência Nacional de Telecomunicações, a estratégia passa por evitar a concentração de mercado e abrir espaço para diferentes modelos de negócio. De acordo com Sidney Nince, superintendente de Outorga e Recursos à Prestação da Anatel, não existem barreiras regulatórias que impeçam a entrada de novas empresas no país, mesmo com a presença dominante da Starlink.
Em entrevista ao Podcast Canaltech, Nince explicou que a agência tem adotado autorizações com prazos mais curtos, de cinco anos, como forma de reavaliar periodicamente o cenário e prevenir a formação de monopólios. Embora a Starlink detenha cerca de metade do mercado brasileiro de comunicação de dados via satélite, o número de projetos autorizados indica um ecossistema mais amplo em formação.
“Nós já temos autorizado cerca de 13 a 15 constelações de satélites em órbita baixa para operar no Brasil. A maioria dessas constelações pretende oferecer serviços de IoT (Internet das Coisas) via satélite, mas algumas delas pretendem fornecer também conexões de banda larga via satélite de órbita baixa”, contou.
A presença de novos players começou a se materializar de forma mais concreta no fim do ano passado, quando a Amazon avançou com o Projeto Kuiper, também chamado de Amazon LEO, em parceria com a operadora Sky. A iniciativa marca a entrada direta de outra gigante global no mercado brasileiro de internet via satélite. Além disso, há expectativa em torno do projeto TeraWave, da Blue Origin, que pode ampliar a disputa conforme seus planos de expansão global avancem.
O interesse dessas empresas reforça a percepção de que a conectividade via satélite tende a se tornar peça central da inclusão digital, sobretudo em regiões rurais, comunidades isoladas e áreas de difícil acesso. O desafio, no entanto, não se resume ao lançamento de satélites. Preço, escala, acordos comerciais e capacidade técnica seguem como fatores decisivos para a consolidação dos serviços.
Conexão direta do espaço ao celular ainda enfrenta limites técnicos
Um dos pontos mais observados pelo setor é a tecnologia direct-to-device. A Anatel já autorizou testes iniciais desse modelo dentro do Sandbox Regulatório, ambiente experimental que permite a avaliação de novas soluções sob regras específicas. A proposta é analisar o funcionamento da conexão direta entre satélites e smartphones antes de qualquer liberação comercial ampla.
Segundo o superintendente, a tecnologia utiliza a frequência de uma operadora móvel terrestre, o que exige acordos comerciais entre a empresa de satélite e a operadora de telefonia, além da autorização da agência reguladora. “A dificuldade é você ter um satélite que permite usar essa frequência temporariamente”, explicou.
Outro obstáculo está relacionado à própria dinâmica orbital. Como os satélites de órbita baixa estão em constante movimento, a área de cobertura sobre um mesmo ponto é limitada. “Como um satélite está em movimento, ele cobre uma área só por 7 minutos. A janela de testes é 7 minutos por dia, a menos que você tenha um terminal em vários lugares do Brasil”, explicou, ao comentar os ensaios realizados em Brasília.
Os resultados iniciais indicaram desafios tanto na curta janela de conexão quanto na distância entre o celular e o satélite. Por isso, a avaliação da Anatel é de que a evolução da conexão direta com smartphones deve ocorrer de forma gradual. Em um primeiro momento, a liberação tende a se restringir a serviços básicos, como chamadas de emergência e envio de mensagens de texto.
A navegação plena na internet, com acesso contínuo a dados e aplicativos, ainda depende de avanços técnicos e de uma maior densidade de satélites em operação. Mesmo assim, o cenário aponta para um mercado em transformação, no qual a liderança atual pode ser pressionada por novos concorrentes e por modelos de conectividade que ampliam o alcance da internet no Brasil.
Fonte: Canal Tech
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