O agronegócio brasileiro segue convivendo com um ambiente financeiro mais desafiador. Dados da Serasa Experian mostram que a população rural encerrou o quarto trimestre de 2025 com R$ 54 bilhões em dívidas negativadas, reflexo de um período marcado por custos elevados, crédito mais restrito e instabilidade nos preços de diversos produtos agrícolas.
Embora os bancos e instituições financeiras não liderem o número de novas negativações, eles concentram a maior parte dos valores em aberto. Segundo o levantamento, 93,9% de toda a inadimplência registrada no campo está ligada ao sistema financeiro.
O cenário reforça uma preocupação que vem acompanhando o setor desde os últimos ciclos agrícolas. Depois de anos impulsionados por crédito abundante e expansão da produção, muitos produtores passaram a enfrentar dificuldades para manter o equilíbrio financeiro diante do aumento das despesas operacionais e da redução da rentabilidade em algumas cadeias produtivas.
Os reflexos já aparecem não apenas nas estatísticas de inadimplência, mas também na procura por mecanismos de renegociação de dívidas e na mudança de comportamento das instituições que financiam a atividade rural.
Murilo Vianna assumiu recentemente o cargo de sócio-diretor na divisão de venture capital da Angra Partners, liderada por Alberto Guth. Integrado à equipe da gestora, o executivo terá o papel de impulsionar a expansão das companhias que compõem o portfólio da casa, além de atuar diretamente no fortalecimento estratégico dessa unidade de negócios.
Taxa de inadimplência continua avançando
A taxa de inadimplência do agronegócio, considerando operações com atraso superior a 180 dias, alcançou 8,2% no quarto trimestre de 2025. O percentual ficou acima dos 7,2% registrados no mesmo período do ano anterior.
Apesar da alta, a evolução foi mais moderada na comparação com o trimestre anterior, quando o indicador avançou apenas 0,2 ponto percentual.
Para a Serasa Experian, os números sugerem que a deterioração financeira continua, embora em ritmo menos acelerado do que o observado nos últimos anos.
“Apesar de sinais de estabilização em alguns segmentos, a inadimplência no agronegócio segue em alta gradual, com produtores ainda enfrentando margens apertadas e fluxo de caixa pressionado, diante de custos elevados, preços voláteis e crédito mais seletivo”, afirma Marcelo Pimenta, head de agronegócio da Serasa Experian, em nota.
O estudo aponta que os índices mais elevados foram registrados entre a população sem registro rural, com taxa de 9,9%, e entre grandes produtores, que apresentaram inadimplência de 9,8%.
Os produtores de médio porte registraram índice de 8,3%, enquanto os pequenos ficaram em 7,8%, demonstrando que as dificuldades financeiras atingem diferentes perfis dentro do setor.
Recuperações judiciais batem novo patamar
O avanço dos pedidos de recuperação judicial tornou-se outro indicador relevante para medir a pressão enfrentada por parte dos produtores rurais.
Em 2025, foram contabilizados 853 pedidos de recuperação judicial apresentados por pessoas físicas ligadas ao agronegócio. O volume representa crescimento de 51% em comparação com os 566 registros de 2024.
Mato Grosso, Goiás e Paraná lideram a lista dos estados com maior concentração de processos. Juntos, respondem por mais da metade dos pedidos registrados no país.
A elevação das recuperações judiciais ocorre em um contexto de maior dificuldade para renegociar passivos e acessar novas linhas de financiamento. Em muitos casos, a ferramenta passou a ser utilizada como alternativa para reorganizar compromissos financeiros acumulados ao longo dos últimos ciclos produtivos.
O crescimento também acompanha a piora gradual de alguns indicadores de crédito observados no setor.
Crédito rural perde força
Com a elevação do risco, bancos e demais financiadores passaram a adotar uma postura mais cautelosa na concessão de recursos ao agronegócio.
Segundo a Serasa Experian, a quantidade de novos contratos de crédito rural e agroindustrial caiu quase 4% na comparação anual.
Além da redução no número de operações, houve retração nos valores liberados. O ticket médio por CPF apresentou queda de 21%, sinalizando que as instituições financeiras estão limitando sua exposição em um cenário considerado mais desafiador.
Ao mesmo tempo, os produtores passaram a buscar financiamentos com vencimentos mais longos. As operações com prazo superior a dois anos cresceram 7,2%, indicando uma tentativa de ampliar o tempo disponível para reorganizar o fluxo de caixa.
Na direção oposta, os contratos de curto prazo, normalmente utilizados para custear plantio e manutenção das safras, registraram retração de 19,5%.
“O perfil do crédito rural, marcado por tickets mais altos, prazos mais longos e maior exposição financeira, faz com que poucos inadimplentes concentrem montantes expressivos de dívida, ampliando o risco mesmo em um cenário de taxa relativamente controlada”, diz Pimenta.
Score de crédito mostra perda de qualidade
Outro indicador monitorado pela Serasa Experian aponta enfraquecimento gradual da saúde financeira no campo. O Agro Score médio da população rural caiu para 600 pontos em 2025, resultado 16 pontos inferior ao observado um ano antes.
De acordo com a empresa, produtores que acabam recorrendo à recuperação judicial costumam apresentar deterioração progressiva da pontuação de crédito até 18 meses antes da formalização do pedido.
O levantamento também mostra diferenças significativas entre as regiões brasileiras. O Sul permanece com os melhores indicadores do país, registrando taxa de inadimplência de 5,7% e os níveis mais elevados de score de crédito.
Já a região classificada como Norte Agro apresentou a situação mais delicada do estudo. Com inadimplência de 12,9%, o índice supera mais que o dobro do registrado no Sul, evidenciando que os efeitos da crise de crédito no agronegócio se distribuem de forma desigual pelo território nacional.
Fonte: Seu Dinheiro
Foto: https://www.magnific.com/br/fotos-gratis/moedas-empilhadas-na-terra-com-planta-e-espaco-de-copia_11764137.htm