Nos últimos anos, o açaí deixou de ser um alimento regional, tradicionalmente consumido na região Norte do Brasil, para ocupar espaço de destaque no cenário internacional. O fruto amazônico passou a integrar um movimento global que vem transformando categorias inteiras de alimentos e bebidas, impulsionado por consumidores mais atentos à saúde, ao bem-estar e à qualidade nutricional.
O mercado global de superalimentos, que inclui superfrutas como açaí, chia, goji berry e spirulina, foi estimado em US$ 193,26 bilhões em 2024 e pode alcançar cerca de US$ 276,48 bilhões até 2030, indicando crescimento sustentado ao longo da década.
Especialista em investimentos e tendências do setor, Rodrigo Godoi Rincon, também diretor da Tropicool, acompanha de perto essa transformação. Graduado pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e com pós-graduação pela London School of Business and Finance, o executivo tem mais de uma década de experiência em M&A, reestruturações e estratégias de expansão, com passagens por instituições como GP Investimentos e Pátria Investimentos. Atuante no segmento de superfrutas e bebidas funcionais, ele avalia que o açaí se transformou em algo maior do que um simples ingrediente.
“O açaí deixou de ser apenas um insumo e passou a ser uma plataforma de inovação, conectando narrativas de saúde com experiências sensoriais e estilo de vida”. Segundo ele, a combinação entre origem autêntica, alto teor de antioxidantes naturais e versatilidade de uso, de bowls e smoothies a bebidas prontas para consumo, posiciona o produto no centro da nova lógica de consumo.
Proteína deixa de ser nicho e ganha escala
Ao mesmo tempo em que superfrutas ganham protagonismo, outra tendência vem moldando o mercado: o crescimento acelerado do uso de proteínas em alimentos e bebidas. O interesse por produtos enriquecidos deixou de ser restrito ao público fitness e passou a alcançar diferentes perfis de consumidores.
No Brasil, o mercado de alimentos com proteína adicionada já movimenta cerca de R$ 2 bilhões por ano. Em escala global, o segmento ultrapassou US$ 250 bilhões em 2024, com expectativa de expansão superior a 60% até 2033, segundo estudos de mercado. Relatórios indicam ainda que o mercado global de produtos alimentares enriquecidos com proteína foi avaliado em US$ 66,8 bilhões em 2023 e pode atingir aproximadamente US$ 101,62 bilhões até 2030, com crescimento anual composto estimado em 6,2% entre 2024 e 2030.
Para Rincon, esses números refletem uma mudança comportamental mais ampla. Parte significativa dos consumidores tem aumentado a ingestão de proteína, cerca de 61% declararam ter ampliado o consumo em 2024, em comparação com anos anteriores. “Não se trata apenas de performance física. Há uma busca por saciedade, controle de peso e equilíbrio em rotinas cada vez mais aceleradas”, observa o executivo.
Bebidas funcionais e convergência de tendências
O avanço da proteína como ingrediente-chave impacta diretamente o portfólio de bebidas. Smoothies, shakes funcionais e produtos ready-to-drink (RTD) enriquecidos expandem as fronteiras da inovação, unindo conveniência e funcionalidade. Essa tendência já é consolidada em mercados desenvolvidos e ganha tração rápida em países emergentes, impulsionada por consumidores conectados a padrões globais de saúde.
Na avaliação de Rodrigo Godoi Rincon, a convergência entre superfrutas e proteína cria um território estratégico para marcas que buscam diferenciação. “A combinação entre benefícios funcionais claros, narrativa de origem e experiência sensorial consistente tende a gerar vantagem competitiva sustentável nos próximos anos”, afirma.
Um novo paradigma de consumo
O cenário revela duas forças simultâneas no mercado global de alimentos e bebidas: de um lado, a valorização de ingredientes naturais associados à saúde e ao bem-estar, como o açaí; de outro, a consolidação da proteína como pilar nutricional e sensorial em produtos contemporâneos.
Para Rincon, essas tendências não representam modismos passageiros, mas um reposicionamento estrutural da indústria. Alimentos e bebidas tornam-se, cada vez mais, extensões do estilo de vida do consumidor moderno, mais informado, exigente e orientado por propósito nutricional.
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