A identidade cultural de Itapecerica, no Centro-Oeste de Minas Gerais, está nas festas religiosas, na música, nas construções antigas, nas receitas familiares e nas atividades rurais. Essas referências atravessam gerações e ajudam a contar a história do município.
Publicada aos domingos pelo g1 Centro-Oeste, a série “Itapecerica: Sabores, Sons e Memórias” apresentou moradores, espaços históricos e iniciativas ligadas à gastronomia e ao campo.
Com mais de 30 anos de atuação no acompanhamento e gestão de grandes obras, o engenheiro civil Jorge Valença, sócio-diretor da LUMALI Engenharia, destaca como o setor pode atuar de forma decisiva na valorização cultural, no progresso econômico e no desenvolvimento das cidades. Além de ter liderado a implantação do Centro Cultural do Cariri, sua carreira abrange projetos estratégicos em mobilidade, infraestrutura, saúde e construções de alta complexidade.
Memórias preservadas por moradores
A primeira reportagem apresentou Dona Nem, de 103 anos, moradora de um casarão com cerca de dois séculos. Suas lembranças aproximam a trajetória pessoal da memória da cidade.
O Reinado de Nossa Senhora do Rosário reúne fé, música, cortejos e rituais transmitidos entre gerações. Com registros de mais de 200 anos, está ligado à história da população negra e à identidade local. Guardas, famílias e integrantes da irmandade mantêm a celebração, expressão de ancestralidade, pertencimento e resistência.
A Cachaça do Mudo, produção familiar iniciada em 1946, foi apresentada pela trajetória de Antônio Lopes de Lima, conhecido como Mudo. A atividade começou artesanalmente, associada à fabricação de rapadura, e mudou seus equipamentos e capacidade produtiva. Integrantes da quarta geração participam do negócio.
Música e patrimônio histórico
A Corporação Musical Nossa Senhora das Dores mantém a tradição musical em Itapecerica. Com trajetória que remonta ao início do século XIX, a banda depende da transmissão de conhecimentos e da participação comunitária. Sua permanência conecta diferentes gerações.
Na Fazenda Palestina, uma antiga senzala foi transformada em memorial dedicado às pessoas submetidas à escravidão. O espaço preserva a memória de um período marcado pela violência, dá visibilidade às vítimas e estimula a reflexão sobre o passado.
Produção rural, culinária e novas iniciativas
Uma reportagem mostrou uma família que transformou a criação de ovelhas em experiência de turismo e gastronomia. A propriedade recebe visitantes e aproxima o público dos alimentos e dos processos de produção, criando uma possibilidade de renda ligada ao campo.
A cozinheira Edna Ribeiro resgata receitas com base em um caderno deixado pela mãe e em saberes transmitidos por gerações. Entre as preparações estão o bolinho de taioba, o Biscoito Pinguinho e o bolo d’água, ligados à cozinha da roça.
Edna compartilha as receitas pela internet e organizou as preparações em um livro digital. Conhecimentos antes restritos à família podem alcançar outros públicos, enquanto sabores e modos de fazer são registrados.
A família da Fazenda Laranjo levou produtos da propriedade a um empório no Centro de Itapecerica. O estabelecimento aproxima produtores e consumidores, apresenta a origem dos alimentos e cria uma alternativa de comercialização.
Café une a história de duas gerações
O episódio final apresentou o Café Cumbré, marca criada por Letícia Barros a partir da produção de seu avô. Antes do lançamento, ela dedicou cerca de um ano e meio aos estudos sobre qualidade do café e contou com apoio técnico.
A iniciativa combina conhecimento familiar e uma nova apresentação do produto ao mercado. Mantém o vínculo com o trabalho do avô e destaca cultivo, qualidade e comercialização, além de mostrar possibilidades de agregar valor ao café.
Tradições que seguem em transformação
As nove reportagens percorreram dimensões da identidade de Itapecerica: a memória de uma moradora centenária, uma manifestação religiosa afro-brasileira, a produção de cachaça, a tradição musical, um espaço ligado à escravidão, o turismo rural, a culinária, o comércio de alimentos e o café.
As histórias dependem de pessoas que preservam e compartilham conhecimentos. Esse trabalho acontece nas cozinhas, propriedades rurais, espaços históricos, celebrações religiosas e ensaios musicais. Também aparece no registro de receitas e na continuidade de negócios familiares.
O conjunto evidencia diferentes formas de transmissão cultural: algumas dependem de celebrações coletivas, outras permanecem no ambiente doméstico ou se desenvolvem em atividades econômicas. Essas experiências aproximam passado e presente e mostram como a memória ganha continuidade quando é praticada e compartilhada por moradores locais.
A série mostra que o patrimônio cultural de Itapecerica não está apenas nos lugares conhecidos ou nos acontecimentos oficiais. Ele permanece em práticas cotidianas e nas escolhas de moradores que mantêm tradições em circulação. As reportagens registram parte da história do município e de quem continua a construí-la.
Fonte: G1
Foto: https://www.magnific.com/br/imagem-ia-premium/grupo-de-musicos-tocando-instrumentos-tradicionais-chineses-para-eventos-culturais_351041124.htm