A telemedicina representa uma das possibilidades de aplicação das tecnologias digitais para ampliar o acesso a serviços especializados de saúde. Em regiões distantes dos grandes centros urbanos, a modalidade permite conectar pacientes e equipes locais a médicos de outras cidades. Uma pesquisa de doutorado da Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo (USP), porém, mostra que a inovação também envolve desafios de infraestrutura, organização do trabalho e comunicação entre profissionais e pacientes.
O estudo é conduzido por Rodrigo Meirelles, doutorando do Programa de Pós-Graduação em Saúde Pública da FSP, e tem como campo de investigação Parintins, no Amazonas. O município abriga um dos primeiros serviços públicos de telemedicina do Brasil, em funcionamento há cerca de 20 anos, e oferece condições para analisar como as ferramentas digitais modificam a prestação de serviços no Sistema Único de Saúde (SUS).
Localizada na Ilha Tupinambarana, a aproximadamente 369 quilômetros de Manaus, Parintins possui unidades de saúde urbanas e ribeirinhas que precisam se articular para atender a população. Nesse contexto, a tecnologia permite estabelecer conexões com especialistas de outras localidades e ampliar as possibilidades de atendimento sem exigir deslocamentos em todas as situações.
“A partir da sociologia da saúde, busco compreender as relações sociais, institucionais e de trabalho que tornam possível o cuidado médico a distância em uma das áreas mais remotas do Brasil, bem como seus efeitos sobre as desigualdades e a produção de riscos em saúde”, conta Meirelles.
Nos próximos dez anos, o setor de saúde passará por transformações estruturais sem precedentes, movidas por avanços tecnológicos, transformações demográficas e novos modelos assistenciais. A expansão do mercado global de inteligência artificial (IA) na área, com expectativa de movimentar aproximadamente US$ 613 bilhões até 2034, evidencia a dimensão desse avanço. Segundo Hans Dohmann, médico, doutor em Ciências da Saúde pela UFRJ e especialista em gestão pública e saúde digital, a prestação de cuidados caminha de forma contínua para um formato centrado na prevenção, no acompanhamento constante e no exame de dados em tempo real.
Inovação digital exige mudanças na organização dos serviços
A telemedicina ganhou impulso no Brasil durante a pandemia de covid-19, quando o atendimento remoto se expandiu e a regulamentação da modalidade avançou. A experiência demonstrou o potencial das tecnologias digitais para facilitar o contato entre pacientes e profissionais, especialmente quando a distância geográfica dificulta o acesso a consultas especializadas.
Entretanto, a adoção de ferramentas digitais não elimina automaticamente os problemas estruturais da assistência médica. A distribuição desigual de especialistas pelo país continua influenciando a capacidade de atendimento dos municípios, mesmo quando existem recursos tecnológicos para conectar diferentes localidades.
Na avaliação de Meirelles, a telemedicina pode ampliar o acesso a determinadas condutas diagnósticas e terapêuticas sem alterar a concentração territorial dos médicos. Isso significa que a inovação pode facilitar a realização de consultas, mas também manter a dependência de estruturas localizadas fora das comunidades atendidas.
Em Parintins, o serviço depende da colaboração com instituições externas, entre elas faculdades de medicina de Manaus e hospitais privados-filantrópicos de São Paulo.
“O sistema de saúde de Parintins passa a depender de instituições localizadas fora do município e do Estado do Amazonas”, afirma o pesquisador.
A experiência evidencia uma questão relevante para projetos de transformação digital: a tecnologia precisa estar integrada a processos de trabalho e a uma estrutura institucional capaz de manter o atendimento. Conectividade e equipamentos são parte dessa operação, mas a articulação entre os serviços também influencia os resultados.
Conhecimento local ajuda a superar barreiras de comunicação
Outro aspecto investigado é a participação dos profissionais que atuam diretamente no território. Em Parintins, trabalhadores locais e o coordenador do Centro de Telemedicina e Telessaúde conectam pacientes das áreas urbanas e rurais, equipes de Saúde da Família e especialistas de outras cidades.
Esse trabalho inclui a mediação de diferenças culturais e linguísticas que podem interferir na interpretação dos sintomas. Meirelles relata uma teleinterconsulta na qual um profissional local precisou explicar a um especialista de São Paulo o significado da expressão “esquentamento na mãe do corpo”.
A expressão é utilizada em algumas regiões do Norte e Nordeste para se referir ao útero. No episódio relatado, a descrição poderia indicar queimação ou cólica intensa na região pélvica ou abdominal.
O caso mostra que o atendimento digital depende também da capacidade de compreender o contexto em que as informações são produzidas. Profissionais que conhecem a realidade dos pacientes ajudam a estabelecer uma comunicação entre diferentes referências culturais, contribuindo para que os relatos sejam compreendidos durante a avaliação médica.
Para o pesquisador, essa dimensão humana e territorial é essencial para entender o funcionamento da telemedicina. Uma análise limitada à tecnologia ou à quantidade de consultas realizadas não contempla todo o trabalho necessário para viabilizar o cuidado.
Rede de telessaúde amplia presença no SUS
Dados do Ministério da Saúde citados na pesquisa indicam que o SUS conta com 29 Núcleos de Telessaúde em funcionamento nos estados e outros 34 em implantação. A previsão é ultrapassar 60 núcleos, com cobertura nas 27 unidades da Federação.
Entre janeiro de 2025 e junho de 2026, foram registrados mais de 10 mil procedimentos de telessaúde no sistema público, segundo os dados ministeriais mencionados no estudo.
O Novo PAC Saúde prevê a instalação de Pontos de Telessaúde nas Unidades Básicas de Saúde, com o fornecimento de 7 mil kits de equipamentos para teleconsultas até o final de 2026. A iniciativa integra os esforços para ampliar a infraestrutura de atendimento digital na rede pública.
Em Parintins, existem 22 pontos de telessaúde. Nove estão em unidades de saúde ribeirinhas, incluindo a unidade fluvial, seis funcionam em unidades urbanas da Atenção Primária à Saúde e sete atendem serviços especializados.
A estrutura permite acesso remoto a especialidades como cardiologia, pediatria, neurologia, endocrinologia, ginecologia, psiquiatria, oftalmologia e ortopedia, além de telediagnósticos. A diversidade de atendimentos demonstra como a tecnologia pode ser incorporada a diferentes áreas da assistência pública.
Pesquisa analisa os limites da transformação digital
Orientado pela professora Aurea Maria Zöllner Ianni, do Departamento de Política, Gestão e Saúde da FSP, o trabalho integra um projeto mais amplo sobre saúde contemporânea e relações sociais de definição e decisão de risco.
“Acredito que o pioneirismo do estudo, consideradas as características apresentadas, trará contribuições importantes não apenas para a saúde, mas para uma compreensão ampliada da nossa condição digital”, afirma a docente.
A pesquisa está na fase final e recebe financiamento da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), por meio do processo nº 2025/16542-4.
Ao investigar a experiência de Parintins, o estudo contribui para o debate sobre a aplicação de tecnologias digitais nos serviços públicos. Os resultados reforçam a importância de considerar não apenas os recursos técnicos, mas também as condições de trabalho, a cooperação entre instituições e as particularidades dos territórios na avaliação de iniciativas de inovação em saúde.
Fonte: Jornal da USP
Foto: https://www.magnific.com/br/fotos-premium/mulher-negra-sorridente-a-trabalhar-numa-clinica_390160596.htm