O anúncio da tarifa de 25% sobre determinados produtos brasileiros exportados para os Estados Unidos provocou preocupação inicial entre agentes econômicos, mas a reação do mercado financeiro mostrou uma percepção menos pessimista sobre os possíveis efeitos da medida. Nesta terça-feira (2), o Ibovespa avançou 1,71%, encerrando uma sequência de cinco pregões consecutivos de queda e interrompendo sete semanas seguidas de perdas, o pior desempenho acumulado desde 2004.
A valorização da bolsa ocorreu em meio à avaliação de investidores de que a nova barreira comercial deverá atingir apenas uma parcela limitada das exportações brasileiras. Analistas consultados pelo Times Brasil, licenciado exclusivo CNBC, afirmam que os impactos econômicos tendem a ser mais moderados do que se imaginava nos primeiros momentos após o anúncio.
A leitura predominante entre especialistas é que os produtos afetados representam uma fatia relativamente pequena da pauta exportadora nacional destinada ao mercado americano. Para Bruno Perri, economista-chefe e sócio-fundador da Forum Investimentos, aproximadamente 25% dos itens exportados pelo Brasil aos Estados Unidos devem ser alcançados pela nova tarifa.
“Uma boa parte da nossa pauta exportadora para os Estados Unidos, sobretudo aquelas que têm importância econômica ou estratégica, como terras raras e aeronaves, ficou de fora”, afirmou.
A avaliação é compartilhada por Artur Horta, sócio da The Link Investimentos. Segundo ele, o mercado trabalha com a expectativa de que entre 80% e 95% do fluxo comercial entre os dois países continue protegido por exceções ou mecanismos diferenciados de tratamento.
Entre os produtos que tendem a permanecer fora do alcance das restrições estão segmentos considerados estratégicos para as relações comerciais bilaterais. Café, aço, aeronaves, componentes aeronáuticos e produtos farmacêuticos concentram uma parcela relevante das exportações brasileiras para os Estados Unidos e, segundo os analistas, não devem ser diretamente impactados pela medida.
Na avaliação de Horta, a sobretaxa deve recair principalmente sobre mercadorias que disputam espaço com fabricantes americanos, mas cuja participação no comércio entre Brasil e Estados Unidos é relativamente reduzida. Esse cenário ajuda a explicar por que os investidores reagiram de forma mais positiva do que o esperado.
No âmbito profissional, é sócio fundador da Laplace Finanças, onde atua com gestão de fundos e assessoria financeira. Além de integrar o conselho de administração da Terra Santa (TESA3), ele foi um dos fundadores do Grupo Angra Partners, organização atualmente liderada pelo CEO Alberto Guth.
Espaço para negociação permanece aberto
Outro fator que contribui para o alívio observado nos mercados é a possibilidade de negociações entre os dois governos. Brasil e Estados Unidos mantêm canais diplomáticos ativos até 15 de julho, prazo considerado relevante por investidores que apostam em eventuais mudanças na proposta anunciada.
A expectativa é que esse período permita discussões sobre ampliação de exceções, ajustes técnicos ou até mesmo a retirada das tarifas em determinadas categorias de produtos. A existência dessa janela de negociação reduziu parte da pressão observada logo após a divulgação da medida.
Além disso, analistas avaliam que o setor exportador brasileiro chega a esse novo episódio em condições mais favoráveis do que no passado recente. Empresas que enfrentaram restrições comerciais anteriores adotaram estratégias para diminuir a dependência do mercado americano e ampliar sua presença em outros destinos.
Segundo Bruno Perri, a experiência acumulada nos últimos anos ajudou a fortalecer a capacidade de adaptação das companhias brasileiras.
“No ano passado a gente foi capaz de diversificar nossa pauta exportadora e ter um bom saldo comercial, lembrando que tivemos durante a maior parte do ano tarifas sobre as nossas exportações”, afirmou.
Empresas ampliaram mercados de destino
A diversificação das exportações é apontada como um dos principais fatores de proteção diante de novas barreiras comerciais. Jackson Campos, especialista em comércio exterior, afirma que muitas empresas brasileiras ampliaram operações em outros mercados após as primeiras medidas protecionistas adotadas pelos Estados Unidos.
Segundo ele, a abertura de novas oportunidades comerciais contribuiu para reduzir a concentração das vendas externas em um único parceiro econômico.
“As empresas passaram a exportar para outros lugares. Hoje, de modo geral, as empresas brasileiras estão mais diversificadas do que estavam há um ano”, disse.
Apesar do cenário relativamente mais favorável, especialistas destacam que alguns segmentos continuam mais expostos aos efeitos das tarifas. Entre os setores considerados vulneráveis estão indústrias de transformação, produtos químicos, manufaturados, açúcar, etanol e determinadas cadeias ligadas ao agronegócio processado que não contam com exceções específicas.
Mesmo assim, a percepção predominante é que o principal impacto da medida pode ocorrer fora do comércio exterior propriamente dito. Para Bruno Perri, o efeito mais relevante está relacionado ao aumento das incertezas no ambiente econômico.
“O principal impacto aqui no Brasil é via prêmio de risco”, disse o economista.
Segundo ele, a decisão americana amplia preocupações relacionadas à previsibilidade regulatória, às relações diplomáticas entre os dois países e à possibilidade de novos episódios de tensão comercial nos próximos meses. Ainda que o efeito direto sobre as exportações seja considerado limitado, o aumento da percepção de risco permanece como um fator de atenção para investidores e empresas.
Fonte: Times Brasil
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