Os mercados globais atravessaram 2025 sob forte instabilidade, marcada pela política de elevação de tarifas de importação nos Estados Unidos, adotada pelo presidente Donald Trump, e pelo prolongamento das disputas comerciais com a China. No mesmo período, o rali das empresas de tecnologia que sustentou a bolsa americana perdeu fôlego no fim do ano, diante das dúvidas sobre a capacidade financeira das companhias para sustentar os elevados investimentos em inteligência artificial.
Esse conjunto de fatores estimulou a diversificação internacional. Bolsas fora dos Estados Unidos ganharam tração, inclusive a brasileira, enquanto o dólar se desvalorizou frente a outras moedas. Ainda assim, os índices americanos fecharam o ano em alta, com o S&P 500 acumulando ganho de 15% e o Nasdaq, de 19%.
Dentro do mercado americano, as chamadas Sete Magníficas perderam espaço relativo. Empresas de mineração, especialmente as ligadas à produção de terras raras usadas em armamentos e em sistemas de IA, ganharam relevância. Mineradoras de ouro acompanharam a valorização do metal, assim como fornecedores de equipamentos para inteligência artificial.
O movimento ficou evidente no desempenho dos BDRs, recibos de ações estrangeiras negociados na B3. Segundo dados da Economatica até 17 de dezembro, bancos e grandes companhias lideraram os ganhos. O Citigroup avançou 42,45% no ano, enquanto a Alphabet, controladora do Google, teve alta de 36,75%. Em contrapartida, a queda do dólar pesou sobre vários papéis. Amazon acumulou perda de 11,23% e a Meta, controladora do Facebook e do WhatsApp, recuou 2,08%.
Raphael “Rafi” Figueiredo, estrategista de ações no Research da XP Investimentos, explica que, após o Liberation Day e o anúncio de novas tarifas, investidores globais reduziram a exposição ao dólar e a ativos americanos, buscando mercados considerados mais competitivos. Durante o evento Onde Investir, ele afirmou que a XP diminuiu a alocação nos Estados Unidos ao longo de 2025 e ampliou posições em emergentes beneficiados pela rotação global.
Atualmente, a casa elevou a recomendação para ativos americanos de “Abaixo do Neutro” para “Neutro”, com foco em empresas de inteligência artificial. “O crescimento do lucro por ação dessas empresas têm surpreendido diante de resultados condizentes com o que essas companhias estão investindo”, disse. Para Europa e Reino Unido, a recomendação também é neutra; China e emergentes seguem “Acima do Neutro”, enquanto o Japão permanece “Abaixo do Neutro”.
Juros, renda fixa e novas geografias
O Itaú Unibanco também reforçou a estratégia de olhar para além dos Estados Unidos. Nicholas McCarthy, diretor global de estratégia de investimentos do banco, afirma que o mercado projeta dois cortes de juros pelo Federal Reserve em 2026, mas a instituição trabalha com apenas um. O banco ampliou investimentos no chamado “resto do mundo”, com foco em ações de emergentes, sobretudo asiáticas, além de empresas de crescimento fora dos EUA.
Na renda fixa, o Itaú vê valor em crédito americano, especialmente em papéis de maior retorno, que pagam taxas próximas de 6,5% ao ano, acima dos títulos do Tesouro. McCarthy destaca ainda o desempenho dos emergentes, com dívidas soberanas subindo cerca de 16% em dólar e bonds corporativos avançando entre 7% e 8%. A parcela de ativos fora dos EUA na carteira do banco passou de 20% para 30% ao longo de 2025.
Para 2026, a expectativa é de um cenário semelhante. “Nossa expectativa é um pouco que será um ano similar a este no mercado internacional, em que ativos fora dos Estados Unidos performarão melhor”, afirmou McCarthy, citando ganhos de mais de 30% em dólar nas bolsas emergentes e quase 45% no Brasil.
No UBS Global Wealth Management, Ronaldo Patah avalia que a volatilidade deve continuar, especialmente se resultados de empresas de tecnologia decepcionarem. Ainda assim, ele mantém recomendação de compra para a bolsa americana e para o setor de tecnologia. “O que estamos vendo é só o começo de uma revolução chamada IA”, afirmou, projetando crescimento concentrado nos próximos cinco anos.
Patah defende alocação acima do neutro em bolsas globais, com destaque para tecnologia chinesa, Europa, emergentes e Japão, evitando mercados onde os preços já estão esticados. A estratégia se apoia no ciclo de queda de juros nos Estados Unidos e em fundamentos ainda sólidos da renda variável.
Para o investidor brasileiro, Vagner Franceschi, do Sistema Ailos, alerta para o impacto cambial. Com a expectativa de mais reduções de juros pelo Fed, o dólar pode seguir pressionado. “Pode ser que o investidor não tenha o retorno esperado por conta da perda no câmbio”, afirmou, reforçando a importância de diversificação, mas com cautela.
Fonte: InfoMoney
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