Em 2017, tripulações de navios-tanque que se aproximavam do porto russo de Novorossiysk, no Mar Negro, enfrentaram uma situação incomum. Enquanto a navegação indicava a chegada ao destino, o GPS apontava uma localização diferente. Os equipamentos mostravam os navios em um aeroporto próximo, como se estivessem em terra firme.
O episódio chamou a atenção da jornalista econômica Katherine Dunn e serviu como ponto de partida para sua investigação sobre uma tecnologia presente na rotina contemporânea. A pesquisa resultou no livro Little Blue Dot: How GPS Shaped the Modern World, ainda sem tradução para o português.
GPS calcula posição e tempo com precisão
A tecnologia funciona a partir de sinais enviados por satélites. Segundo Dunn, o receptor precisa receber informações de quatro deles para calcular longitude, latitude, altitude e tempo. A medição temporal é fundamental porque pequenas diferenças no intervalo de chegada dos sinais ajudam a determinar a localização.
Katherine Dunn explicou à BBC Mundo: “A ideia é que, esteja onde estiver, você precisa receber o sinal de quatro satélites, porque, em conjunto, eles estão resolvendo quatro equações: sua longitude, sua latitude, sua altitude — algo que costumamos esquecer, mas que importa se você estiver, por exemplo, no sexto andar de um prédio — e uma quarta variável, que é o tempo, medido com uma precisão de bilionésimos de segundo.”
Esse mecanismo também faz com que o GPS forneça uma referência precisa de tempo, baseada nos relógios atômicos instalados nos satélites.
Tecnologia nasceu de uma necessidade militar
Apesar de hoje ser associado a celulares e aplicativos de mapas, o GPS foi desenvolvido para atender a demandas militares. Dunn relaciona sua origem direta à Guerra do Vietnã, quando os Estados Unidos enfrentaram dificuldades para atingir alvos com a precisão desejada.
A necessidade era determinar a posição em três dimensões e calcular rapidamente. Por isso, o sistema não depende de triangulação, como muitas vezes se afirma.
“As pessoas costumam dizer que “o GPS funciona por triangulação”, mas não: triangulação envolve ângulos; aqui, é pura velocidade”, afirmou Dunn.
O sistema mede o tempo necessário para um sinal de rádio percorrer a distância entre o satélite e o receptor. Como essas diferenças são muito pequenas, a precisão temporal se torna essencial.
Do equipamento caro ao celular
Os primeiros usuários civis foram agrimensores. Depois, a tecnologia chegou a grupos especializados. Segundo Dunn, os primeiros aparelhos podiam custar cerca de US$ 100 mil.
Na década de 1980, a indústria automobilística japonesa começou a explorar o potencial do GPS.
Os celulares ampliaram sua presença em deslocamentos e serviços.
GPS sustenta sistemas além da navegação
A influência da tecnologia não termina nos mapas. O GPS participa da logística de pessoas e mercadorias e ajuda a sincronizar torres de telefonia, sistemas bancários e redes elétricas. Seu uso alcança ainda a agricultura de precisão, a coordenação de semáforos, sistemas financeiros e aplicações militares.
Mapas e coordenadas oficiais também nem sempre correspondem exatamente ao mundo físico. Para Dunn, a precisão absoluta não existe e exige ajustes contínuos.
Interferência revela vulnerabilidades
O caso de Novorossiysk apresentou outro problema: a manipulação do sinal. Dunn diferencia interferência, que dificulta a recepção, de falsificação, quando sinais são alterados para fazer o receptor acreditar em uma localização incorreta.
Segundo a jornalista, foi a falsificação que fez os navios aparecerem em um aeroporto.
Para Dunn, o maior temor não é simplesmente desligar o GPS, mas manipulá-lo sem que os usuários percebam. Outros sistemas de navegação por satélite já existem.
Hoje, o GPS continua dominante em muitas aplicações, embora celulares possam combinar diferentes constelações de satélites. A trajetória da tecnologia mostra como uma ferramenta desenvolvida para a guerra passou a sustentar atividades civis e estruturas essenciais.
Fonte: G1
Foto: https://www.magnific.com/br/fotos-gratis/sistema-de-gps-num-carro-inteligente_13461902.htm