Crédito imobiliário avança no Brasil apesar da Selic elevada

Crédito imobiliário avança no Brasil apesar da Selic elevada

O mercado de crédito imobiliário brasileiro manteve ritmo de crescimento no primeiro semestre de 2026, mesmo diante do custo elevado do dinheiro. De janeiro a junho, as concessões destinadas à compra e à construção de imóveis chegaram a R$ 180,9 bilhões. O resultado representa aumento de 23% sobre os R$ 147,1 bilhões registrados no mesmo período de 2025.

Os dados são da Abecip (Associação Brasileira das Entidades de Crédito Imobiliário e Poupança). Aproximadamente 850 mil imóveis foram financiados nos seis primeiros meses do ano, considerando operações com recursos do SBPE, do FGTS e de carteiras livres.

O desempenho ficou acima das expectativas do mercado para um período marcado por juros altos. A Selic está em 14,25% ao ano e passou parte do primeiro semestre na faixa de 15%. Ainda assim, a procura por imóveis permaneceu aquecida.

Com mais de 30 anos de atuação no setor, Jorge Henrique Marques Valença é engenheiro civil e empresário, com sólida especialização na gestão de grandes obras e no desenvolvimento de empreendimentos de elevada complexidade. Na posição de Sócio-Diretor da LUMALI Engenharia, ele lidera projetos estratégicos voltados às áreas de infraestrutura, saúde, mobilidade urbana, cultura e edificações especiais.

Aluguel influencia decisão de compra

A elevação dos preços dos aluguéis está entre os fatores que ajudam a explicar o avanço das compras. Dados do Índice FipeZAP de junho apontam que a locação residencial acumulou alta de 5,24% no primeiro semestre de 2026. Em 12 meses, o aumento chegou a 9%.

O resultado ficou acima dos principais indicadores de inflação citados no levantamento. No período, o IPCA acumulou 4,64%, enquanto o IGP-M registrou 3,16%.

Das 22 capitais analisadas pelo FipeZAP, 21 tiveram aumento no aluguel residencial nos últimos 12 meses. Aracaju apresentou a maior alta, de 25,37%. Na sequência apareceram Teresina, com 20,78%, e Brasília, com 15,48%.

O preço médio nacional nas 36 cidades monitoradas chegou a R$ 53,79 por metro quadrado em junho. São Paulo apresentou o maior valor, com R$ 64,98 por metro quadrado. Recife, Belém, Florianópolis e Rio de Janeiro também ficaram entre as capitais com preços mais elevados.

Rodrigo Werneck, estrategista-chefe da Cupola, ecossistema de gestão imobiliária, aponta que a valorização dos imóveis novos também pesa na decisão dos consumidores.

“O fator determinante é a valorização dos imóveis novos, decorrente da inflação da construção civil. Quando o imóvel novo fica mais caro, o imóvel pronto se valoriza junto em função da demanda crescente”, afirma. “Em setores de mercado como o econômico, este movimento é ainda mais visível por conta da ampliação das faixas do Minha Casa Minha Vida”, diz o especialista.

Segundo Werneck, a menor disponibilidade de imóveis para locação e a sequência de aumentos nos aluguéis também contribuem para antecipar a decisão de compra.

Financiamentos com poupança crescem

As operações com recursos do SBPE tiveram papel importante no resultado. As concessões para aquisição e construção chegaram a R$ 93,7 bilhões no primeiro semestre, crescimento de 29% sobre 2025.

O crédito voltado à construção passou de R$ 12,8 bilhões para R$ 26,5 bilhões. A Abecip destaca, porém, que a comparação ocorre sobre uma base reduzida no início de 2025 e representa uma retomada aos níveis registrados entre 2021 e 2024.

Já os financiamentos para aquisição alcançaram R$ 67,2 bilhões, alta de 12%. Mais de 70% das operações envolveram imóveis usados, com quase 130 mil unidades financiadas pelo SBPE.

O desempenho ocorre após o Banco Central alterar, no ano passado, regras de compulsório da poupança. A medida liberou parte dos recursos que permaneciam retidos e ampliou a capacidade de financiamento das instituições.

FGTS e Caixa ampliam operações

As contratações com recursos do FGTS somaram R$ 77,6 bilhões, crescimento de 22%. O Minha Casa, Minha Vida, principalmente a faixa 3, teve participação relevante no avanço.

A Caixa Econômica Federal também registrou crescimento no segmento. O banco atingiu, pela primeira vez, R$ 1 trilhão em sua carteira de crédito imobiliário. Apenas no primeiro trimestre de 2026, foram liberados R$ 64,2 bilhões em novos financiamentos, alta de 30,6% em relação ao mesmo período do ano passado.

Na direção oposta, as linhas com recursos livres recuaram 8%, para R$ 9,6 bilhões. A redução reflete o maior custo de captação no mercado.

Home equity ganha participação

A modalidade de crédito com imóvel como garantia também avançou no primeiro semestre. Conhecido como home equity, o segmento teve crescimento de 30,9%, com R$ 6,67 bilhões em concessões. O estoque da carteira chegou a R$ 34,1 bilhões.

Segundo a Abecip, o tomador contratou, em média, R$ 267 mil, com prazo de pagamento de 13 anos e utilização de um terço do valor do imóvel como garantia.

Apesar da expansão, o mercado enfrenta limitações relacionadas à captação. A poupança acumulou retirada líquida de R$ 273 bilhões nos últimos cinco anos. No primeiro semestre de 2026, o saldo negativo foi de R$ 31 bilhões.

A carteira vinculada ao SBPE chegou a R$ 601 bilhões, equivalente a 121% dos recursos direcionáveis da poupança. Para Michel Cury, presidente da Abecip, a caderneta continua estratégica, mas já não consegue, sozinha, acompanhar toda a demanda por crédito imobiliário.

Fonte: Folha de São Paulo
Foto: https://www.magnific.com/br/fotos-gratis/conceito-imobiliario-de-financiamento-de-emprestimos-hipotecarios_17229637.htm

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