IA na saúde: especialistas alertam para limites de chatbots em diagnósticos e orientações médicas

IA na saúde: especialistas alertam para limites de chatbots em diagnósticos e orientações médicas

A popularização da inteligência artificial mudou a forma como as pessoas procuram informações sobre saúde. Em poucos segundos, chatbots conseguem responder perguntas sobre sintomas, medicamentos, exames e possíveis diagnósticos. A praticidade tem atraído milhões de usuários, especialmente em momentos de dúvida ou dificuldade para conseguir atendimento médico.

Apesar da conveniência, especialistas alertam que essas ferramentas ainda apresentam falhas importantes e não devem substituir a avaliação de profissionais de saúde.

A britânica Abi, moradora de Manchester, é uma das pessoas que passaram a utilizar o ChatGPT para esclarecer questões médicas do dia a dia. Segundo ela, a experiência costuma ser mais personalizada do que uma busca convencional na internet.

“Ele meio que permite resolver problemas em conjunto”, relata. “É quase como conversar com o seu médico.”

Para quem convive com ansiedade relacionada à saúde, a ferramenta representou uma alternativa menos angustiante do que navegar por páginas e fóruns que frequentemente destacam os cenários mais graves para qualquer sintoma apresentado.

Em determinadas situações, o recurso mostrou utilidade prática. Quando suspeitou estar com uma infecção urinária, Abi descreveu os sintomas ao chatbot e recebeu a orientação de procurar um farmacêutico. Após uma consulta rápida, conseguiu o tratamento necessário.

Ela afirma que a recomendação ajudou a tomar uma decisão sem precisar recorrer imediatamente ao sistema público de saúde do Reino Unido, conhecido como NHS.

No entanto, a experiência positiva não se repetiu em todos os momentos.

Segundo Hans Dohmann, médico, doutor em Ciências da Saúde pela UFRJ e especialista em saúde digital e gestão pública, a tendência é que a assistência médica migre para modelos focados em prevenção, análise de dados em tempo real e monitoramento constante.

Quando a inteligência artificial erra

Em janeiro, Abi sofreu uma queda durante uma caminhada. Após escorregar, bateu as costas em uma rocha e passou a sentir uma forte pressão que se espalhava em direção ao abdômen.

Preocupada com a intensidade da dor, ela recorreu novamente ao chatbot em busca de orientação.

“O ChatGPT me disse que eu havia perfurado um órgão e precisava ir ao pronto atendimento imediatamente”, conta.

A recomendação levou Abi ao hospital. Depois de algumas horas de observação, a dor começou a diminuir e ela percebeu que não se tratava de uma situação grave.

Para ela, a inteligência artificial interpretou incorretamente os sintomas apresentados.

Casos como esse ajudam a explicar por que médicos e pesquisadores têm acompanhado com atenção o crescimento do uso de chatbots para aconselhamento em saúde.

O diretor médico da Inglaterra, Chris Whitty, já demonstrou preocupação com essa tendência. Segundo ele, as ferramentas ainda produzem respostas insuficientemente confiáveis em diversas situações e frequentemente apresentam conclusões erradas com elevado grau de convicção.

Estudos apontam queda de precisão nas conversas reais

Pesquisadores da Universidade de Oxford decidiram investigar como os sistemas se comportam diante de diferentes cenários clínicos.

A equipe desenvolveu casos detalhados envolvendo problemas de saúde de vários níveis de gravidade. Entre eles estavam situações simples, que poderiam ser resolvidas em casa, além de emergências que exigiam atendimento imediato.

Quando os chatbots recebiam todas as informações relevantes de forma organizada, o desempenho chamou atenção. A taxa de acerto chegou a 95%.

“Eles foram incríveis, de verdade, quase perfeitos”, afirma o pesquisador Adam Mahdi.

O resultado mudou radicalmente quando pessoas reais passaram a interagir com os sistemas.

Mais de 1.300 participantes receberam cenários médicos e utilizaram os chatbots para obter diagnósticos e orientações. Nesse ambiente, a precisão caiu para apenas 35%.

Na prática, isso significa que dois terços das respostas continham algum tipo de orientação inadequada ou incorreta.

Segundo Mahdi, a explicação está no comportamento natural dos usuários. Muitas vezes, os sintomas são descritos de maneira incompleta, detalhes importantes são esquecidos e informações relevantes surgem apenas ao longo da conversa.

Esse cenário dificulta a interpretação correta da inteligência artificial e aumenta a probabilidade de erro.

O problema da confiança excessiva

Outra pesquisa, realizada pelo Instituto Lundquist de Inovação Biomédica, na Califórnia, avaliou a qualidade das respostas geradas por diferentes plataformas de inteligência artificial.

Foram analisados sistemas como ChatGPT, Gemini, Grok, DeepSeek e Meta AI em temas relacionados a câncer, vacinas, células-tronco, alimentação e desempenho esportivo.

Os pesquisadores elaboraram perguntas que estimulavam respostas potencialmente problemáticas para testar a robustez dos modelos. Mais da metade dos resultados apresentou algum tipo de falha.

Em um dos testes, chatbots foram questionados sobre tratamentos alternativos capazes de curar câncer. Em vez de rejeitar a premissa, alguns sistemas passaram a citar práticas sem comprovação científica.

Para o pesquisador Nicholas Tiller, o principal risco está na forma como essas respostas são apresentadas.

“São projetados para fornecer respostas muito confiantes e impositivas, que transmitem um senso de credibilidade. Por isso, o usuário considera que eles devem saber do que estão falando.”

Embora as empresas responsáveis pelos modelos afirmem investir continuamente em melhorias, especialistas destacam que a tecnologia ainda possui limitações estruturais. Os sistemas são desenvolvidos para prever padrões de linguagem e gerar textos plausíveis, não para substituir a análise clínica de profissionais treinados.

A própria OpenAI reconhece que o ChatGPT deve servir como ferramenta de informação e educação, sem ocupar o lugar do atendimento médico.

Abi continua utilizando chatbots quando precisa de esclarecimentos rápidos, mas afirma que passou a enxergar as respostas com mais cautela. Na avaliação dela, a inteligência artificial pode ser útil como ponto de partida, desde que suas recomendações sejam verificadas antes de orientar decisões importantes sobre a saúde.

“Eu não confiaria em tudo o que ele disser como a verdade absoluta.”

Fonte: G1
Foto: https://www.magnific.com/br/fotos-premium/ferramentas-de-assistente-virtual-de-ia-gerativa-para-engenheiro-rapido-e-usuario-final-confortavelmente_410529823.htm

Outras postagens

Postagens relacionadas

Últimas postagens

Goiás aposta em inteligência artificial e serviços digitais para ampliar atendimento ao cidadão

Governador sanciona criação da GOtech e do Pequi Bank, iniciativas voltadas à digitalização dos serviços públicos, combate ao crime e inclusão financeira de empreendedores

OMS revisa impacto da Covid e estima número de mortes três vezes superior ao registrado

Novo relatório aponta 22,1 milhões de óbitos associados à pandemia entre 2020 e 2023. Especialistas destacam que a desinformação comprometeu medidas de combate à doença e influenciou a resposta sanitária em diversos países

Vinhos de Portugal: conheça as regiões que produzem alguns dos rótulos mais prestigiados do país

Do norte ao sul, Portugal reúne terroirs distintos, castas autóctones e tradições centenárias que ajudam a explicar a reputação internacional de seus vinhos