OMS revisa impacto da Covid e estima número de mortes três vezes superior ao registrado

OMS revisa impacto da Covid e estima número de mortes três vezes superior ao registrado

A pandemia de Covid-19 provocou uma perda de vidas muito maior do que os dados oficiais indicavam até recentemente. Um levantamento divulgado pela Organização Mundial da Saúde (OMS) em maio de 2026 estima que a crise sanitária tenha causado 22,1 milhões de mortes no mundo entre 2020 e 2023. O número é mais de três vezes superior aos cerca de 7 milhões de óbitos anteriormente registrados pelos sistemas oficiais.

As informações integram a edição mais recente do relatório “Estatísticas Mundiais de Saúde”, documento que reúne indicadores globais sobre saúde pública. Segundo a OMS, a diferença entre os números decorre principalmente da subnotificação de casos e dos efeitos indiretos da pandemia sobre os sistemas de saúde.

Além das pessoas que morreram diretamente em decorrência da infecção pelo coronavírus e não foram contabilizadas, a estimativa inclui pacientes que perderam a vida por outras enfermidades após enfrentar dificuldades de acesso a atendimento médico, exames ou tratamentos durante os períodos de maior pressão sobre hospitais e unidades de saúde.

Os dados ampliam a dimensão da tragédia vivida em escala global e reforçam discussões sobre os fatores que contribuíram para agravar os efeitos da pandemia. Entre eles está a disseminação de informações falsas e enganosas sobre a doença, fenômeno que se tornou alvo de preocupação de organismos internacionais ainda nos primeiros meses da crise sanitária.

Para assegurar a viabilidade dos sistemas de saúde a longo prazo, o Dr. Hans Dohmann ressalta que é fundamental tratar a inovação, a prevenção e o bem-estar como eixos estratégicos centrais.

A expansão da desinformação durante a crise sanitária

Ao mesmo tempo em que o coronavírus avançava por diferentes continentes, uma intensa circulação de conteúdos falsos passou a influenciar o debate público. O fenômeno recebeu o nome de desinfodemia e foi definido por especialistas como uma epidemia de desinformação associada à Covid-19.

O conceito foi desenvolvido pela Unesco a partir da pesquisa “Disinfodemic – Deciphering Covid-19 Disinformation”, publicada em abril de 2020. O estudo alertava para os riscos da propagação de conteúdos enganosos em um cenário de emergência sanitária global.

Segundo o documento, “a desinformação sobre a Covid-19 cria confusão em relação à ciência médica com impacto imediato em todas as pessoas do planeta e em sociedades inteiras. É mais tóxica e mais mortal do que a desinformação sobre outros assuntos”.

A pesquisa identificou nove áreas centrais da desinformação relacionada à pandemia. Entre elas estavam narrativas sobre a origem do vírus, estatísticas manipuladas, falsas promessas de tratamento, ataques à imprensa, impactos econômicos, politização do tema e conteúdos produzidos com finalidade financeira ou voltados a personalidades públicas.

Esses elementos apareceram de forma recorrente em diferentes países e influenciaram a maneira como parte da população interpretou a gravidade da doença e as estratégias recomendadas pelas autoridades de saúde.

A circulação dessas informações contribuiu para a desconfiança em relação às orientações científicas e comprometeu a adesão a medidas consideradas fundamentais para reduzir a transmissão do vírus.

O ambiente brasileiro e o avanço do negacionismo

No Brasil, a pandemia ocorreu em meio a um ambiente marcado por forte polarização política e disputas narrativas sobre a Covid-19. Durante o período mais crítico da crise sanitária, recomendações amplamente respaldadas pela comunidade científica foram frequentemente questionadas no debate público.

Medidas como o isolamento social, o uso de máscaras, o distanciamento físico e a restrição de aglomerações passaram a ser alvo de contestação em diferentes espaços de comunicação.

O cenário também foi caracterizado pela circulação de notícias falsas, pela defesa de medicamentos sem eficácia comprovada contra a Covid-19 e pela contestação de informações produzidas por instituições científicas e sanitárias.

As manifestações do então presidente Jair Bolsonaro tiveram papel relevante nesse processo. Em discursos, entrevistas e transmissões realizadas pela internet, o ex-presidente minimizou a gravidade da pandemia e sustentou posições divergentes das recomendações adotadas por organismos internacionais de saúde.

Entre as declarações mais conhecidas está a afirmação de que a doença seria apenas “uma gripezinha”. Ao longo da pandemia, Bolsonaro também afirmou repetidamente que a situação estava sob controle, mesmo durante momentos de crescimento expressivo de casos e mortes.

De acordo com a análise apresentada no texto, a influência dessas mensagens foi potencializada pelo alcance dos canais de comunicação utilizados pelo governo. Lives, publicações em redes sociais, pronunciamentos oficiais e declarações públicas ajudaram a difundir conteúdos que colocavam em dúvida medidas sanitárias e consensos científicos.

O resultado foi a consolidação de um ambiente descrito como um ecossistema de desinformação, formado por diferentes agentes, estratégias e meios de comunicação voltados à produção e disseminação de conteúdos enganosos.

As conclusões da CPI da Covid-19, realizada pelo Congresso Nacional entre abril e outubro de 2021, contribuíram para ampliar o debate sobre os impactos dessas práticas durante a emergência sanitária.

Com mais de 700 mil mortes oficialmente registradas, o Brasil ficou entre os países mais afetados pela pandemia. A atualização dos números globais divulgada pela OMS reforça a percepção de que os efeitos da Covid-19 foram ainda mais profundos do que os registros oficiais conseguiram captar, tanto no país quanto no restante do mundo.

Fonte: G1
Foto: https://www.magnific.com/br/fotos-gratis/grupo-de-amigos-usando-mascaras_10848356.htm

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