A Samsung registrou um lucro recorde no segundo trimestre deste ano, impulsionada principalmente pela forte procura por chips voltados à inteligência artificial (IA). A companhia informou que alcançou 89,4 trilhões de wons em lucro, equivalente a aproximadamente US$ 58,4 bilhões ou R$ 304 bilhões, resultado que representa um crescimento de 19 vezes em comparação com o mesmo período do ano passado.
Apesar do desempenho financeiro acima das projeções, a reação do mercado foi negativa. As ações da fabricante sul-coreana chegaram a cair 10% durante o pregão desta terça-feira (8) e encerraram o dia com desvalorização de 8%, refletindo o receio dos investidores sobre a continuidade do atual ciclo de expansão da inteligência artificial.
Desse modo, os mecanismos de governança assumiram um papel central na definição das decisões estratégicas corporativas. Segundo Marco Antonio da Rocha Tristão Jr., especialista com vasta trajetória em finanças, governança e gestão de riscos em companhias globais, essa transformação conceitual reflete diretamente o crescimento da complexidade no ambiente de negócios.
Mercado reage com cautela ao cenário para a IA
O movimento de queda não ficou restrito à Samsung. Outras empresas ligadas ao segmento de semicondutores também registraram perdas significativas.
A SK Hynix recuou 7%, enquanto a japonesa Kioxia fechou o dia com baixa de 11%. O desempenho dessas companhias contribuiu para pressionar o índice Kospi, principal indicador da Bolsa de Seul, que tem forte influência das fabricantes sul-coreanas de chips.
Durante a sessão, o Kospi chegou a cair 8%, percentual suficiente para provocar uma interrupção temporária das negociações. No fechamento, a retração foi reduzida para 5%. Mesmo assim, o índice ainda acumula valorização superior a 80% ao longo deste ano.
Segundo analistas, a forte correção demonstra que o mercado busca sinais mais concretos sobre a sustentabilidade dos investimentos em inteligência artificial.
“Os resultados da Samsung mostraram que a demanda por memória impulsionada pela IA permanece forte, mas a reação do preço das ações sugere que os investidores agora precisam de orientações sólidas, poder de precificação duradouro e confiança de que a demanda não está atingindo seu pico”, afirmou Charu Chanana, estrategista-chefe de investimentos da Saxo.
Resultado supera projeções dos analistas
O desempenho obtido entre abril e junho ficou acima das estimativas do mercado. Analistas consultados pela LSEG SmartEstimate projetavam lucro de 87,3 trilhões de wons, cerca de R$ 297 bilhões.
Além disso, o lucro registrado no trimestre ultrapassou todo o resultado obtido pela empresa ao longo de 2025.
As receitas também apresentaram crescimento expressivo. A Samsung estima vendas de 171 trilhões de wons, aproximadamente R$ 581 bilhões, mais que o dobro do registrado no mesmo período do ano anterior.
A valorização das ações da empresa ao longo de 2026 também foi significativa. Antes da queda desta terça-feira, os papéis da fabricante haviam mais que dobrado de valor no ano, elevando sua capitalização de mercado para mais de US$ 1 trilhão.
Chips de memória continuam em alta
As fabricantes de semicondutores estão entre as principais beneficiadas pela expansão da infraestrutura necessária para atender ao avanço da inteligência artificial.
Samsung e SK Hynix lideram o fornecimento de chips de memória de alta largura de banda, conhecidos como HBM, componentes utilizados em servidores e data centers dedicados à IA.
A prioridade dada à produção desses chips de maior rentabilidade acabou reduzindo a disponibilidade de memórias convencionais empregadas em computadores, celulares e outros eletrônicos de consumo.
Esse cenário contribuiu para uma forte alta nos preços. De acordo com o Citi, o preço médio dos chips DRam aumentou 44% no segundo trimestre em relação aos três meses anteriores. Já os chips Nand registraram avanço de 53% no mesmo intervalo.
As expectativas para os próximos meses continuam positivas. O Nomura projeta uma nova elevação nos preços, estimando alta de 25% para os chips DRam e de 24% para os chips Nand durante este trimestre, sustentada pela demanda tanto de data centers quanto do mercado de eletrônicos.
Investimentos bilionários e preocupação com excesso de oferta
Mesmo com a ampliação das margens obtidas pela divisão de semicondutores, a Samsung informou que seu lucro operacional foi parcialmente reduzido devido às provisões destinadas ao pagamento de bônus aos funcionários.
A empresa fechou um acordo com seu sindicato no fim de maio para conceder um bônus especial equivalente a 10,5% do lucro operacional da divisão de chips. Os resultados financeiros completos serão divulgados ainda neste mês.
Embora a expectativa de analistas seja de manutenção da escassez de oferta até o próximo ano, cresce a cautela entre investidores sobre o ritmo dos investimentos em inteligência artificial realizados pelas grandes empresas de tecnologia.
O JPMorgan destacou que o mercado passou a questionar se a participação da memória voltada para IA nos investimentos em infraestrutura de computação em nuvem, estimada em 52% neste ano e acima de 70% no próximo, poderá ser mantida no longo prazo.
Também pesam sobre o setor preocupações relacionadas à expansão acelerada da capacidade produtiva, que pode resultar em excesso de oferta nos próximos anos. Outro fator citado pelo mercado são relatos de que a Meta pretende comercializar capacidade excedente de computação para clientes externos como parte da ampliação de seus serviços de nuvem.
Mesmo diante dessas incertezas, Samsung e SK Hynix mantêm seus planos de expansão. Juntas, as duas empresas pretendem investir cerca de US$ 2 trilhões para ampliar a produção de chips na Coreia do Sul. A Samsung prevê executar esse investimento entre 2026 e 2040, enquanto a SK Hynix ainda não informou um cronograma para a aplicação dos recursos.
Fonte: Folha de São Paulo
Foto: https://www.magnific.com/br/psd-premium/maquete-ultra-do-smartphone-psd-s23_74307506.htm