A economia brasileira chegará a 2027 diante de uma combinação de desafios fiscais e estruturais que também deverá afetar empresas, investimentos e setores ligados à inovação. O governo que assumir após as eleições de 2026 terá pela frente uma dívida pública elevada, orçamento federal com pouca margem de manobra, transição para um novo sistema tributário e dificuldades para ampliar a produtividade.
O cenário fiscal será um dos pontos centrais. A dívida total do país, considerando governo federal, estados, municípios, empresas estatais e o Instituto Nacional do Seguro Social (INSS), supera R$ 11 trilhões. A relação entre dívida pública e Produto Interno Bruto (PIB) chegou a 82,9%.
A área tributária, historicamente vista pelas empresas como uma função meramente operacional de apoio contábil e de compliance fiscal, passa por uma redefinição profunda. Com as recentes transformações no sistema tributário nacional, o avanço do fisco digital e a busca por previsibilidade financeira, as estratégias fiscais assumiram papel central nas decisões corporativas. Segundo o especialista Myke Oliveira Gomes, jurista, advogado, contador e auditor, este novo panorama demanda a integração contínua da inteligência tributária às diretrizes e lideranças estratégicas das organizações.
Juros elevados afetam investimentos
O custo do endividamento também exige atenção. O custo médio anual dos juros está em torno de 13,05% e, somente neste ano, o Brasil já pagou mais de R$ 800 bilhões em juros.
A composição da dívida aumenta a influência da política monetária sobre esse cenário. Cerca de 58% do endividamento está atrelado à taxa Selic. Assim, mudanças nos juros básicos interferem no custo de financiamento do governo e podem repercutir nas condições de crédito disponíveis para empresas e consumidores.
Para o setor produtivo, juros elevados podem representar um ambiente mais restritivo para decisões de investimento. Projetos que dependem de financiamento passam a exigir maior avaliação sobre custos, prazos e retorno.
Reforma tributária exige adaptação das empresas
A implementação da reforma tributária será outro ponto importante para o ambiente de negócios. A partir de 2027, começa o período de transição para o novo modelo, com substituição gradual de tributos atuais pelos novos IBS e CBS.
A mudança exigirá adaptações de sistemas, processos internos e mecanismos de controle. Empresas de diferentes setores precisarão acompanhar as novas regras e seus efeitos sobre as operações ao longo da cadeia produtiva.
Entre as questões que permanecerão na agenda está a definição da alíquota do IVA e a regulamentação do Imposto Seletivo. Também será necessário assegurar o funcionamento dos créditos tributários durante a transição.
A mudança tributária ocorrerá de forma gradual, mas exigirá planejamento das empresas. A adequação de sistemas e procedimentos será parte da preparação para as diferentes etapas previstas no novo modelo.
Produtividade continua como desafio estrutural
O baixo crescimento da produtividade é outro obstáculo para a economia brasileira. O avanço limitado da eficiência produtiva reduz a capacidade de sustentar taxas maiores de crescimento ao longo do tempo.
O cenário também apresenta uma relação entre crescimento econômico, inflação e juros. Quando o crescimento do PIB supera 2%, pode haver maior pressão inflacionária e, consequentemente, elevação dos juros.
Para empresas e setores tecnológicos, aumentar a produtividade depende de condições que favoreçam investimentos e desenvolvimento de novas soluções. A questão, portanto, ultrapassa o desempenho de curto prazo e envolve a capacidade de ampliar a eficiência da economia.
Minerais críticos ampliam potencial tecnológico
O desenvolvimento da cadeia de minerais críticos representa outra frente de interesse econômico. O Brasil possui a segunda maior reserva de terras raras do planeta e também conta com reservas expressivas de cobre, cobalto e níquel.
Esses minerais são importantes para a produção tecnológica. Apesar dos recursos disponíveis, o país ainda explora pouco esse potencial. A regulamentação e o desenvolvimento desse mercado ficarão entre as tarefas da próxima administração.
A exploração desses recursos poderá integrar uma agenda relacionada ao desenvolvimento de cadeias produtivas de maior conteúdo tecnológico, embora o aproveitamento desse potencial dependa de regulamentação e de condições para a atividade econômica.
Cenário internacional adiciona incertezas
O ambiente externo também será relevante para as decisões econômicas. Europa, Estados Unidos, Japão e Brasil enfrentam cenários de inflação e juros elevados. Essas condições podem influenciar a capacidade de captação de recursos e as decisões de investimento.
A próxima gestão terá de conciliar a necessidade de controlar as contas públicas com a criação de condições para crescimento e investimentos. Dívida, juros, reforma tributária, produtividade e minerais críticos estarão entre os temas capazes de influenciar o ambiente econômico e tecnológico brasileiro a partir de 2027.
Fonte: CNN Brasil
Foto: https://www.magnific.com/br/fotos-premium/comercio-de-investimentos-no-mercado-de-acoes-moeda-financeira-e-bandeira-do-brasil-dados-de-fundo-de-tendencia-de-negocios-financeiros_207963541.htm