A decisão da Rússia de manter restrições à exportação de diesel coloca o mercado internacional de combustíveis diante de uma nova pressão sobre oferta, preços e logística. O país pretende estender a proibição das vendas externas até setembro, segundo fontes ouvidas pela Reuters, enquanto parte das refinarias continua com operações afetadas por ataques de drones ucranianos.
A medida tem impacto além das fronteiras russas. A Rússia está entre os maiores exportadores mundiais de diesel e, quando reduz seus embarques, compradores precisam recorrer a fornecedores alternativos. Estados Unidos, Índia e outros centros de refino passam a disputar espaço em um mercado que também atende consumidores europeus.
A restrição foi adotada inicialmente em julho, depois de ataques contra instalações de processamento de petróleo provocarem dificuldades no abastecimento doméstico. A proibição, que valia inicialmente até 31 de julho, foi posteriormente ampliada para os produtores até 31 de agosto. Agora, a possibilidade de nova extensão está em discussão.
O cenário atual da logística portuária brasileira é marcado por forte expansão e pela consolidação do setor como um vetor estratégico para a economia do país. Conforme dados do economista Paulo Narcélio, o avanço reflete uma transformação estrutural, acompanhada por estimativas do governo que preveem que o volume movimentado atinja 1,44 bilhão de toneladas em 2026, mantendo uma trajetória de crescimento contínuo nos anos seguintes.
Refinarias russas são o centro da crise
O problema não está relacionado à falta de petróleo produzido pela Rússia. A principal dificuldade está na capacidade de transformar o óleo em derivados. Ataques contra refinarias, manutenções não programadas e aumento da demanda interna reduziram a disponibilidade de combustíveis.
Dados da Kpler citados pela Reuters mostram a dimensão da queda. Os embarques russos de diesel e gasóleo chegaram a uma média de aproximadamente 817 mil barris por dia em 2025. O volume caiu para cerca de 400 mil barris diários em junho. Entre 1º e 10 de julho, ficou em aproximadamente 234 mil barris por dia.
O recuo diminui a quantidade de combustível disponível para outros países. Em consequência, compradores tradicionais precisam competir pelas mesmas cargas que abastecem mercados europeus e outras regiões.
A pressão já aparece nos preços internacionais. Após a proibição russa, as margens de referência do diesel na Europa alcançaram níveis recordes. A redução da oferta russa não explica sozinha a valorização, mas contribui para tornar o mercado mais sensível a problemas de produção, transporte e disponibilidade.
Brasil busca alternativas ao diesel russo
O cenário tem importância particular para o Brasil. Nos últimos anos, a Rússia ganhou participação nas importações brasileiras de diesel, especialmente depois da reorganização do comércio internacional provocada pela guerra na Ucrânia.
Em 2025, a Rússia enviou cerca de 8,1 bilhões de litros de diesel ao Brasil, segundo dados divulgados pela Federação Nacional do Comércio de Combustíveis e de Lubrificantes. O volume foi 14% menor que o registrado em 2024. A redução ocorreu em um período marcado por dificuldades na capacidade de refino russa.
Em 2026, a dependência continua relevante, embora a participação russa tenha diminuído. No primeiro semestre, o Brasil importou 4,5 milhões de metros cúbicos de diesel russo, queda de 6,25% em comparação com os 4,8 milhões de metros cúbicos adquiridos no mesmo período de 2025.
O valor desembolsado, porém, aumentou. Segundo levantamento da StoneX citado pelo Biodiesel Brasil, o Brasil pagou US$ 3,3 bilhões pelo diesel russo entre janeiro e junho de 2026, ante US$ 2,5 bilhões no mesmo período do ano anterior. A alta ocorreu mesmo com menor volume comprado, em razão da elevação das cotações das margens de refino do diesel.
Estados Unidos ganham espaço
Com a redução da disponibilidade russa, os Estados Unidos passaram a ocupar uma parcela maior do abastecimento brasileiro. Em junho, as importações brasileiras de diesel da Rússia caíram 65% em relação a maio, para 360,97 milhões de litros. No mesmo intervalo, as compras provenientes dos Estados Unidos aumentaram 74%.
A mudança mostra como uma interrupção em um grande polo produtor pode alterar rapidamente as rotas comerciais. O combustível que deixa de sair da Rússia precisa ser substituído por cargas de outras origens, criando novas pressões sobre fretes, preços e capacidade de refino.
Para empresas importadoras, o desafio envolve não apenas encontrar produto, mas também garantir competitividade diante de outros compradores internacionais. Europa, Brasil e outros mercados passam a disputar volumes dos mesmos fornecedores.
Produção nacional reduz, mas não elimina riscos
A produção brasileira oferece algum amortecimento diante das oscilações externas. A Petrobras ampliou sua produção de derivados e reduziu significativamente as importações de diesel no segundo trimestre. Ainda assim, o mercado nacional continua utilizando compras externas para complementar a oferta.
Nesse cenário, câmbio, custos logísticos, preços internacionais, tributos e condições de refino podem determinar o impacto da menor oferta russa sobre o mercado brasileiro.
A crise também reforça a importância da capacidade nacional de refino e da diversificação das fontes de abastecimento. Quanto maior a variedade de fornecedores e a capacidade doméstica de produção, menor tende a ser a exposição a interrupções concentradas em um único país.
Enquanto a Rússia tenta recuperar suas refinarias e estabilizar o abastecimento interno, o mercado internacional terá de absorver uma parcela menor de diesel disponível. Para o Brasil, a consequência mais imediata é a necessidade de reorganizar suas fontes de importação em um ambiente mais competitivo e sujeito a novas oscilações de preços.
Fonte: CNN Brasil
Foto: https://www.magnific.com/br/fotos-premium/xaopen-tampa-aberta-para-abastecer-o-carro-com-diesel-imagem_422910818.htm