IA muda dinâmica do Vale do Silício e pressiona empregos e modelos de negócios

IA muda dinâmica do Vale do Silício e pressiona empregos e modelos de negócios

Durante anos, executivos e analistas do Vale do Silício projetaram que a inteligência artificial (IA) transformaria profissões tradicionais. Radiologistas perderiam espaço, advogados deixariam de redigir contratos e bancos reduziriam equipes. Esse cenário amplo ainda não se confirmou de forma consistente. Em várias áreas, o impacto segue limitado ou difuso. No entanto, há um ponto em que a mudança já é concreta e mensurável: a própria indústria de tecnologia.

Quase quatro anos após o lançamento do ChatGPT, que acelerou a corrida global por soluções de IA, empresas do setor passaram a rever estruturas, reduzir equipes e reorganizar prioridades. O resultado já aparece nos dados de emprego. Entre 2022 e 2025, o condado de San Francisco perdeu cerca de 30 mil vagas em tecnologia, segundo o Census Bureau. No mesmo período, os Estados Unidos registraram queda de aproximadamente 150 mil postos no segmento.

“O Vale do Silício é, neste momento, uma espécie de laboratório fascinante de todas essas mudanças e transformações”, disse Aaron Levie, CEO da Box.

Cortes e reestruturação no setor

A capacidade da IA generativa de escrever código e automatizar tarefas técnicas tornou-se um fator central nesse movimento. Ferramentas desenvolvidas por empresas como OpenAI, Google e Anthropic passaram a executar atividades que antes exigiam equipes inteiras de programadores.

Na prática, isso abriu espaço para cortes. Levantamento do Layoffs.fyi indica que mais de 70 empresas de tecnologia eliminaram ao menos 40 mil empregos neste ano. A Block, dona do Square, Cash App e Tidal, reduziu 40% de sua força de trabalho em fevereiro, o equivalente a cerca de 4 mil funcionários.

“Já estamos vendo que as ferramentas de inteligência que estamos criando e usando, combinadas com equipes menores e mais enxutas, estão possibilitando uma nova forma de trabalhar que muda fundamentalmente o que significa construir e administrar uma empresa”, escreveu Jack Dorsey.

Parte das demissões também está ligada ao aumento de custos para desenvolver e operar sistemas de IA. Empresas passaram a direcionar recursos para essa área. Em março, a Atlassian cortou cerca de 10% de sua equipe, aproximadamente 1.600 pessoas, com o objetivo de ampliar investimentos internos em inteligência artificial.

“Nossa abordagem não é ‘a IA substitui pessoas’”, escreveu Mike Cannon-Brookes. “Mas seria desonesto fingir que a IA não muda o conjunto de habilidades de que precisamos ou o número de funções necessárias em certas áreas. Ela muda.”

Menos gente, mais automação

Executivos de grandes companhias já indicam que esse movimento deve continuar. O CEO da Amazon, Andy Jassy, afirmou que a empresa deve operar com menos funcionários corporativos ao longo do tempo. Mark Zuckerberg, da Meta, fez avaliação semelhante ao observar que projetos antes conduzidos por equipes numerosas agora podem ser realizados por uma única pessoa altamente qualificada.

Para o economista Ted Egan, da cidade e do condado de San Francisco, o discurso de aumento de produtividade não se sustenta isoladamente. “Se você acha que a IA é essa pílula incrível de produtividade, então simplesmente use a pílula, não demita ninguém e dobre sua receita. Mas definitivamente não é isso que eles estão fazendo.”

Ele avalia que a reorganização do mercado de trabalho já está em curso. “A força de trabalho e o pool de talentos em tecnologia estão definitivamente se reorganizando. A IA é uma grande razão para isso.”

Startups mais enxutas e novo padrão de crescimento

A transformação também atinge o modelo de criação de startups. O padrão que marcou a última década, com captação elevada, crescimento acelerado e contratações em massa, perde força. No lugar, surgem empresas menores, apoiadas em ferramentas de IA para desenvolver produtos e gerar receita com equipes reduzidas.

Agentes de IA, sistemas capazes de executar tarefas de forma autônoma, estão no centro dessa mudança. “Uma empresa de software pode lançar vários agentes, e cada um pode fazer o trabalho de 10 a 20 funcionários”, disse Priya Saiprasad, da Touring Capital.

Esse cenário altera não apenas o tamanho das equipes, mas também a lógica de expansão. Crescer deixa de significar contratar mais pessoas. Em muitos casos, passa a significar ampliar o uso de automação.

Pressão sobre o modelo de software

Outro ponto de inflexão envolve o modelo de negócios do setor de software. Durante décadas, empresas adotaram a cobrança por usuário, baseando receitas no número de pessoas que utilizam suas plataformas. Esse formato sustentou o crescimento de gigantes como Salesforce e ServiceNow.

Com a IA, essa lógica entra em xeque. Se empresas conseguem operar com menos funcionários, o número de usuários tende a cair, afetando diretamente a receita das fornecedoras de software.

Além disso, novas soluções baseadas em IA exigem maior capacidade computacional e aumentam custos operacionais. Ao mesmo tempo, ferramentas de código aberto e gratuitas ampliam a concorrência.

“No momento, com a IA, estamos no Velho Oeste”, disse Alex Zukin, da Wolfe Research, ao descrever o ambiente de testes e mudanças simultâneas.

Modelos alternativos começam a surgir. A cobrança por uso considera o volume de operações realizadas. Já a cobrança por resultado prevê pagamento apenas quando uma tarefa é concluída. Nenhum deles, porém, se consolidou.

“Como definir um resultado?”, questionou Akash Bhatia, do Boston Consulting Group. “Isso é muito complicado.”

Impacto financeiro e incerteza

A incerteza já se reflete no mercado financeiro. Desde outubro, empresas de software perderam cerca de US$ 3 trilhões em valor de mercado, aproximadamente um terço do total do setor no índice S&P 500. Em 2026, ações de companhias como Salesforce e ServiceNow acumulam quedas próximas de 30%.

“Este era um setor que as pessoas acreditavam ser extremamente durável”, afirmou Zukin. “Agora, com as mudanças acontecendo, você nem sabe o que vai acontecer em dois meses.”

Apesar das dúvidas sobre o impacto em outras áreas da economia, o efeito da inteligência artificial sobre a tecnologia já deixou de ser projeção. Ele aparece nas demissões, nas estratégias das empresas e na forma como novos negócios são construídos. O Vale do Silício, mais uma vez, antecipa um movimento que ainda está longe de se estabilizar.

Fonte: Folha de São Paulo
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