O avanço acelerado da inteligência artificial (IA) já movimenta bilhões de dólares e redesenha o mapa do poder econômico global. Para Larry Fink, esse processo traz um risco relevante. O executivo da BlackRock avalia que a tecnologia pode ampliar a desigualdade ao concentrar ganhos em empresas e investidores que já dominam capital, dados e infraestrutura.
O alerta foi feito na carta anual aos acionistas divulgada na segunda-feira, documento tradicionalmente usado por Fink para discutir tendências estruturais da economia. Desta vez, a inteligência artificial ocupou papel central, não apenas como motor de crescimento, mas como fator potencial de desequilíbrio social.
Segundo o executivo, a distribuição dos ganhos gerados por novas tecnologias segue um padrão conhecido. “A enorme riqueza criada nas últimas gerações foi principalmente para pessoas que já possuíam ativos financeiros”, escreveu. “A IA ameaça repetir esse comportamento em escala ainda maior”.
A análise parte de uma constatação simples. Quem já está inserido no mercado financeiro, com acesso a investimentos sofisticados, tende a capturar a maior parte dos retornos em ciclos de inovação. Para quem está fora, a distância pode aumentar.
Concentração de ganhos preocupa mercado
Na carta, Fink amplia o raciocínio ao tratar da percepção pública sobre o funcionamento do capitalismo. Ele afirma que uma parcela crescente da população já demonstra insatisfação com o sistema, especialmente diante da dificuldade de acesso aos benefícios econômicos.
“A questão mais ampla é quem participa dos ganhos. Quando a capitalização de mercado aumenta, mas a propriedade permanece restrita, a prosperidade pode parecer cada vez mais distante para aqueles que estão de fora”, escreveu.
O diagnóstico ganha peso em um momento de forte valorização das empresas ligadas à inteligência artificial. Em 2026, o setor vive uma corrida tecnológica liderada por gigantes como Meta, Microsoft, Alphabet e Amazon.
Essas companhias disputam espaço no desenvolvimento de modelos avançados, competindo diretamente com empresas como OpenAI e Anthropic. Ambas, inclusive, avaliam abrir capital, em busca de novas fontes de financiamento após ciclos intensos de investimento privado.
Infraestrutura e capital definem vencedores
O executivo da BlackRock destaca que a liderança no setor de IA não é aleatória. Ela depende de três fatores principais. Dados em larga escala, capacidade computacional e acesso a capital.
“As empresas com dados, infraestrutura e capital para implementar IA em escala estão posicionadas para se beneficiar”, afirmou Fink. Ele pondera que esse fenômeno não é novo. Em diferentes momentos históricos, mudanças tecnológicas redefiniram líderes de mercado.
Mesmo assim, o ritmo atual e o volume de recursos envolvidos tornam o cenário mais sensível. Grandes gestoras e fundos têm direcionado investimentos bilionários para sustentar a expansão da infraestrutura digital.
Entre os exemplos citados estão grupos como Pimco, Apollo Global, Blackstone e Blue Owl, que financiam a construção de data centers, peça-chave para o funcionamento de sistemas de IA.
A própria BlackRock intensificou sua atuação no setor. A gestora firmou parceria com a Microsoft, a Nvidia e o fundo MGX em projetos que somam cerca de US$ 30 bilhões.
Além disso, no ano passado, a empresa e sua divisão de infraestrutura concluíram a aquisição da Aligned Data Centers por aproximadamente US$ 40 bilhões, reforçando a aposta na base física que sustenta a inteligência artificial.
Inclusão financeira como desafio
Apesar do cenário de concentração, Fink não trata o avanço da IA como um problema em si. Para ele, a tecnologia deve gerar valor econômico expressivo nos próximos anos. A questão central está em como esse valor será distribuído.
Ele defende a criação de mecanismos mais amplos de participação, que permitam a indivíduos comuns acessar os benefícios desse crescimento. Isso inclui desde instrumentos financeiros mais acessíveis até políticas que incentivem a inclusão no mercado de capitais.
“A IA criará valor econômico significativo. Garantir que a participação nesse crescimento se expanda junto com ele é tanto o desafio quanto a oportunidade”, escreveu.
Previdência também entra no debate
A carta também aborda outro ponto sensível da economia dos Estados Unidos. O futuro da Previdência Social. Fink alerta que o sistema pode enfrentar dificuldades para cumprir integralmente seus compromissos já a partir de 2033.
Para enfrentar o problema, ele sugere mudanças na gestão do fundo previdenciário. Entre as propostas está a realocação de recursos atualmente investidos em títulos do Tesouro para ativos de mercado, estratégia que poderia elevar retornos e reduzir o déficit de financiamento.
“A Previdência Social é uma promessa fundamental, e as pessoas acreditam com razão que ela deve ser honrada”, escreveu. “Mas, no sistema atual, não fazer nada pode muito bem quebrar essa promessa.”
A combinação entre inovação tecnológica acelerada e pressões estruturais nas contas públicas, na visão de Fink, exige respostas coordenadas. Sem isso, o avanço da inteligência artificial pode ampliar não apenas a produtividade, mas também as desigualdades que já marcam a economia global.
Fonte: Folha de São Paulo
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